julho de 2020

JOGO, DANÇA E LUTA: ROTAS POÉTICAS DECOLONIAIS

Gabriela S.C Santana

 

 

 

 

 

 

 

fotos déborah bittencourt
rafael wolak

 

 

 

 

 

 

 

Este ensaio é uma chamada para pensar nossos corpos e as relações que com eles geramos. Nessas tessituras penso mais cuidadosamente o fazer artístico e, considerando a pluralidade deste fazer, sigo na contramão de visões homogeneizantes até chegar no vasto campo das poéticas dançantes negras.

 

Para adentrar na temática, o primeiro passo é localizar traços recorrentes a este território fértil e dissoluto, tendo em vista que por poéticas dançantes negras podemos abarcar as performances da tradição e da contemporaneidade. Como exemplo, temos as danças praticadas em contextos variados tais como os teatrais, os urbanos e/ou os midiáticos (que se apropriam de plataformas digitais de compartilhamentos de vídeos, como Youtube e Instagram).

 

Todavia, as ideias iniciais partem da experiência com algumas performances de matrizes de tradição afro, nas quais a dança é pensada e praticada como potência vital resultante das relações e dos saberes produzidos no e pelo corpo, este, produtor e produto das relações entre arte e a vida.

 

 

 

 

 

 

Nestas performances, os repertórios de movimentos informam representações sociais e  identidades coletivas, pois são praticadas na relação com as experiências sociais e comunitárias como acontecem nos rituais devocionais. Podemos perceber isso nas encenações e narrativas que mesclam ritualidade e, em alguns casos, religiosidade. Nas  congadas e maracatus, em formato de cortejo, ou ainda, em algumas danças afrobrasileiras que performadas em roda, louvam entidades religiosas, como no tambor de crioula, no jongo e no samba de roda. Aí, temos gestualidades imbuídas de marcas, estórias e pulsões moldadas por relações históricas, sociais.

 

 


UM MERGULHO PEDAGÓGICO

Como artista e capoeirista e, desde 2010, atuando como professora no curso de licenciatura em Dança de Pernambuco (UFPE), foi possível trabalhar com os saberes da Capoeira Angola em disciplinas de teor técnico e criativo, confrontando lógicas hegemônicas que historicamente recaem sobre subjetividades e experiências estéticas concebidas pelos povos de matrizes africanas e ameríndias.

 

Em 2016, a coordenação do curso me convidou a assumir uma disciplina que reunia em sua ementa diferentes gêneros de danças – sociais, sagradas, étnicas e urbanas. Tais gêneros de dança possuem carga horária diminuta em relação às práticas de ensino aprendizagem em dança orientadas por métodos criados no eixo euro-americano, ou seja, majoritariamente predominam as práticas somáticas e de linguagens codificadas como o Balé Clássico, Dança Moderna, Contemporânea e a Performance Art.

 

“… os repertórios de movimentos informam representações sociais e  identidades coletivas, pois são praticadas na relação com as experiências sociais e comunitárias como acontecem nos rituais devocionais. Podemos perceber isso nas encenações e narrativas que mesclam ritualidade e, em alguns casos, religiosidade”.

Nesse momento, conduzi como professora o debate sobre tabus que envolvem nossas corporeidades. Compartilhei reflexões pessoais sobre questões étnicas e raciais observadas em espaços de referência da cultura negra e com acesso e privilégios sociais. A vivência diversa dos alunos, na maioria provenientes das danças populares de Pernambuco, conduziu pensamentos sobre questões históricas e políticas que evidenciam a presença destas danças em contextos não teatrais.

 

Em cada um dos três semestres que ministrei esta disciplina, nomeada como Oficina 5, foram buriladas técnica e, criativamente, um conjunto de gramáticas corporais, dentre elas, capoeira, frevo, as danças do xirê, break e brega. Uma miscelânea de estéticas que reinventaram nossas corporeidades e nossas relações no mundo.

 

Revisitamos padrões, estereótipos, estigmas e estratégias sobre as quais, tais danças transitam como modo de confrontar às lógicas coloniais presentes até os dias de hoje. Com isso, geramos campo e prática de alteridade na medida em que desconstruimos padrões mentais e motores. Perguntamo-nos sobre o que cada dança quer dançar: Quais são as questões impulsionadoras de cada tipo de dança? Como cada dança potencializa identidades e subjetividades? Quais poéticas afirmam e quais poéticas desestabilizam modos deterministas de olhar as questões sociais e políticas dessas danças?

 

 

 

REFAZENDO AS  ROTAS

As provocações antes feitas em sala de aula como professora, foram infiltradas no doutorado em andamento na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). O objetivo nesta etapa é o debate sobre os jogos afrodiaspóricos que interseccionam jogo, luta-dança.

 

Segundo alguns estudiosos das Black Martial Arts, como Matthias Röhrig Assunção (2005), T.J. Deschi-Ob (2011) e Edward L. Powe (2001), esses jogos multifacetados citados desde os princípios da Diáspora Africana herdaram técnicas ancestrais de combate reterritorializados durante o evento devastador de invasão das Américas.

 

 

 

 

 

 

Assentados em novos territórios esses jogos foram ressignificados pelo pensamento moderno/colonial e, apesar de plurais, apresentam em sua maioria qualidade dançável. Alguns acontecem na relação direta com toques e cantos, sendo outros realizados somente antes ou depois de apresentações folclóricas e/ou performances participativas em que movimento e som interdependem. Havendo música ou não, grande parte desses jogos possuem uma qualidade pulsante diferente da qualidade solene que caracteriza as artes marciais do continente asiático e europeu.

 

Em solo brasileiro a pernada carioca, a tiririca e o batuque-boi, jogos hoje extintos, mas descritos entre as décadas de 1930 e 1970, são algumas das performances que co-relaciono a outros jogos afrodiaspóricos praticados fora do país.

 

Tais práticas foram e continuam sendo discutidas por historiadores e antropólogos, havendo, no entanto, raras investigações realizadas por outros artistas, sendo o caso de maior notabilidade os breves filmes de 16mm em preto e branco realizados em 1936 pela antropóloga e mãe da dança moderna negra, Katherine Dunham. A coreógrafa pesquisou entre outras expressões da tradição caribenha a ladja, também conhecida como danmyé, uma arte marcial cadenciada da Martinica.

 

 

 

Ag’ya, 1947

 

 

 

Nessa mesma rota proponho a identificação de aspectos convergentes entre alguns jogos. A capoeira, vivenciada ao longo de quinze anos em contextos diversos, o danmyé, ensinada na cidade de São Paulo pelo martinicano Dimitri Dracius, e o jogo do pau, narrado por antigos mestres do Quilombo São José da Serra, na cidade de Valença, na baixada fluminense. Nessas práticas o movimento dançado é código para o jogo, e o jogo, material para o devir. A improvisação neste caso nasce do desejo de surpreender e desafiar o outro, sendo o encadeamento de passos uma consequência e não um objetivo compositivo dos praticantes.

 

Tais  jogos desenvolvem habilidades como escuta e prontidão, uma vez que as ações improvisadas precisam estar alinhadas aos códigos e a coletividade presente.

 

 

 

 

 

 

Quando há cantos, versos e pontos, os(as) jogadores(as) são estimulados sensorialmente por meio de imagens e paisagens que alimentam movimentos e gestos improvisados dando significados e balizas para as relações interpessoais. Em estado de jogo, os(as) participantes alimentam um campo coletivo sustentado pelo aqui agora, mas também por uma memória coletiva. Sendo essa memória nem sempre da ordem do vivido, entrecruzando estórias e elementos que constituem um imaginário coletivo.

 

Assim, a conjunção destes elementos – temporalidades, imagens e emoções – formam campo de energia experienciado coletivamente pelos participantes que, comumente relatam sensações de comunhão ou tensão de forças vetorizadas durante o jogo/dança.

 

“Qual lente utilizamos para pensar as danças de tradição das afrodiásporas? “

Essa complexidade poética me faz acreditar que a vivência nesses contextos mostram  novos modos de leitura, análise e expressão no campo das estéticas dançantes negras. Todavia, para avançar na formulação de práticas sensíveis e conscientes das corporeidades coletivas presentes em cada uma dessas expressões, tão importante quanto entender suas matrizes e motrizes corporais e culturais, é entender a dinamicidade e a peculiaridade desses territórios existenciais.

 

Qual lente utilizamos para pensar as danças de tradição das afrodiásporas? A sugestão deste texto é praticar o jogo, também dança e luta, pois neles podemos encontrar novas formas de resistência e enfrentamento ao pensamento moderno/colonial, modificando nossos modos de dançar, improvisar e se relacionar na movediça intersecção entre tradição e contemporaneidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

Gabriela S.C Santana

Gabriela S. é mãe, artista independente, capoeirista angoleira, professora do Curso de Licenciatura em Dança de Pernambuco desde 2010 e doutoranda em Artes Cênicas na UNIRIO. Ginga e improvisa entre as performances culturais da tradição e as abordagens contemporâneas em dança e performance, com especial interesse nas práticas e corporeidades afrodiásporicas.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.