agosto de 2026

ZUMVÍ, UM MANIFESTO FOTOGRÁFICO CONTRA OS QUAIS OS SORTILÉGIOS NADA PODEM

Nabor Jr.

 

 

 

 

 

 

 

capa: LÁZARO ROBERTO
Afoxé Filhos do Korin Efan
Salvador, BA
2019

 

 

 

 

 

 

 

Por mais visíveis que sejam os êxitos logrados pelos (contra)movimentos negros na história recente do Brasil – a ideia de (contra)movimento surge de uma percepção de que os movimentos contra-hegemônicos vão, na verdade, de encontro à ordem estabelecida e, portanto, são contrários aos movimentos dominantes – alguns dos quais incontornáveis, outros, por sua vez (e em sua maioria), com a cotidiana necessidade de estarem em “eterna vigilância” – havemos de convir que alguns avanços edificados, também, como resultado dessa inabalável resistência pelo direito a uma existência preta plena, ainda chamam a atenção. O campo das artes visuais, por exemplo, que neste século XXI adequou-se em fina sintonia com a era das imagens, muitas vezes sendo usada como plataforma para a construção de uma “cultura visual da dominação”, fazendo da tecnologia uma importante aliada, teve parte das suas históricas convenções subvertidas neste período. O gradual aumento de mostras dedicadas a iluminar o pensamento e a estética negra nas artes brasileiras para além das efemérides do nosso calendário, acompanhados, muitas vezes, de uma maior participação de artistas, curadores e produtores negros no circuito, são partes desse processo de subversão, ainda que a desconstrução absoluta deste campo permanece como uma disputa a perder de vista. O fato, portanto, da exposição Zumví – Arquivo Afro Fotográfico, que homenageia o coletivo negro baiano que leva o mesmo nome da mostra, ocupar o imponente prédio do Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo – localizado na emblemática Avenida Paulista – recheando as galerias da instituição com cerca de 400 imagens que celebram, majoritariamente, a exuberante presença afro-brasileira na cidade de Salvador e arreadores, é uma dimensão que devemos considerar ao refletirmos sobre o conjunto de fotografias reunidas nessa grande mostra.

 

Antes de prosseguirmos, caba destacar que a “desconstrução absoluta” da atual condição dos museus e instituições culturais, proposta pela cientista política e ativista feminista decolonial francesaFrançoise Vergès (e também presente, de certa forma, no pensamento da jornalista e crítica literária Louisa Yousfi), sugere a o construção de espaços de liberdade num utópico futuro pós-capitalista, pós-racista, pós-patriarcal e pós-museu. Visto que, para Vergès, o modelo de museu ocidental – mesmo com uma programação “decolonial”, não é um modelo que mereça respeito.

 

 

 

O historiador e pesquisador Jorge do Espírito Santo, na primeira sede do Zumví, na Igreja da Penha (1990). Foto: Lázaro Roberto.

 

 

 

BREVÍSSIMA BIOGRAFIA DE UMA PIGMENTAÇÃO INSTITUCIONAL EM MOVIMENTO
E OS PARADIGMAS DA REPRESENTAÇÃO

Fundado em 1987, na cidade de Belo Horizonte, com o nome de Instituto de Artes Moreira Salles, e desde 1996 também com uma unidade instalada na cidade de São Paulo, o IMS – como é chamado – abriga a maior coleção de fotografias do Brasil, além de possuir um dos mais importantes acervos fotográficos do mundo. Em 2022, o IMS paulista, após passar 20 anos ocupando um discreto edifício no bairro de Higienópolis, organizou, já instalado na suntuosa unidade erguida na av. Paulista, a primeira individual da instituição dedicada a um fotógrafo negro brasileiro, a exposição Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito. A mostra teve curadoria de Sergio Burgi, reconhecido por sua longa e destacada trajetória dedicada à fotografia e a preservação de arquivos fotográficos, e que desde 1999 ocupa o cargo de coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles. Um homem branco, com uma formação acadêmica privilegiada, ocupando um cargo de poder em uma grande instituição cultural e fazendo a curadoria de uma exposição dedicada à um artista negro é um recorrente marcador na história das artes visuais no Brasil e nas discussões sobre representação e representatividade neste setor. O próprio IMS, nas poucas vezes em que artistas negros protagonizaram alguma de suas mostras, usou deste mesmo expediente. Em 2018, por exemplo, com a exposição do fotógrafo malinês Seydou Keita, que teve a curadoria compartilhada entre Jacques Leenhardt e Samuel Titan Jr. e, novamente em 2019, quando exibiu Pixinguinha – Naquele tempo, hoje e sempre, com curadoria de Luiz Fernando Vianna. Todos eles, homens brancos. A curadoria adjunta de Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito, é bem verdade, esteve a cargo de uma mulher negra, a pesquisadora e docente acadêmica Janaína Damasceno, conhecida por sua longa trajetória dedicada a investigação da presença negra no campo das imagens. A presença da competente Janaína como curadora adjunta, conforme veremos mais adiante, foi um sinal.

 

“(…) o museu não é um lugar neutro, de humanismo planetário, mas um espaço social onde se travam conflitos sociais, culturais e econômicos (…)”. Françoise Vergès em Decolonizar o Museu – Programa de desordem absoluta (Ubu Editora, 2023).

Zumví – Arquivo Afro Fotográfico tem um curador negro, Hélio Menezes. Janaína Damasceno, Hélio Menezes, Iliriana Rodrigues, Ana Vitorio, Daniele Queiroz… são nomes que acompanham um proposital movimento institucional do IMS: a representação e a representatividade “positiva” de pessoas negras. Primeiro, internamente, com início por volta dos anos 2020, pigmentando e diversificando o perfil da sua equipe de colaboradores e, depois, especificamente em fevereiro de 2025 – a vista de todos – quando Daniele Queiroz (mulher negra), em conjunto com Thyago Nogueira, fizeram a curadoria de Zanele Muholi: beleza valente, que teve como curadora adjunta outra mulher negra, Ana Vitorio. Notem, Daniele Queiroz foi a primeira pessoa negra a assinar uma curadoria no IMS. Posteriormente, no final de 2025, Janaína Dasmaceno e Iliriana Rodrigues ocupraam, respectivamente, a curadoria e a assistência de curadoria da exposição Gordon Parks – A América sou eu. Esta última, a primeira exposição integralmente organizada por uma equipe curatorial negra em toda a história do IMS (curadoria e assistência). Essa recente configuração das exposições propostas pelo IMS – que em maior ou menor proporção também se observa em outras grandes instituições dedicadas às artes e a cultura no país – com curadores, artistas, pesquisadores, produtores e equipe técnica com perfis mais condizentes com as plurais realidades brasileiras, também deve ser creditada aos (contra)movimentos negros, mesmo que, nitidamente, ainda atendam a interesses maiores, tanto do regime neoliberal e sua economia extrativista, como de figuras poderosas do mercado das artes visuais, tais como financiadores, marchands, colecionadores, galeristas…

 

A curadoria negra de exposições exclusivamente, ou majoritariamente, dedicadas à artistas negros, aliás, é um outro marcador significativo a ser observado nos deslocamentos das artes brasileiras nessas décadas iniciais do século XXI. Pois, se por um lado há uma maior presença de pessoas não brancas em cargos de liderança nas exposições, por outro lado também parece existir um interesse silencioso, meio camuflado, que insiste fazer com que essa ascensão preta “não se crie”. Não é de hoje, aliás, que, ao constatarem esse cenário ardiloso – que na prática, tanto coloca profissionais negros em constante disputa entre si, quanto impõem as estes obstáculos para a mobilidade intelectual e plena participação na vida artística do país – muitos pensadores tem se dedicado a estabelecer reflexões e elaborar estratégias para desestabilizar essa ordem.

 

 

AUTONOMIA E PROTAGONISMO?

Outro interessante fato que orbita a exposição Zumví – Arquivo Afro Fotográfico é que as fotografias exibidas não foram incorporadas ou adquiridas pelo IMS como uma espécie de contrapartida pela “sessão” do espaço expositivo. Ou seja, o valioso conjunto fotográfico do Zumví segue não somente pertencendo ao coletivo, mas sendo conservado na sede da organização, em Salvador, em posse das mesmas mãos negras que edificaram esse potente arquivo que hoje conta com cerca de 50 mil fotografias produzidas ao longo de mais de 35 anos de existência. Essa relação entre artista/coletivo e instituição, se diferencia, por exemplo, dos casos de dois ícones da fotografia brasileira: Walter Firmo (1937) e Januário Garcia (1943-2021). Desde 2018, o IMS custodia, em regime de comodato (empréstimo de longo prazo), cerca de 155 mil imagens de Firmo. Além de ter adquirido aproximadamente mil imagens com centenas de fotografias históricas, ensaios sobre a negritude brasileira, festas populares e retratos icônicos. Já Januário Garcia teve 70 mil fotografias (bem como equipamentos fotográficos e de laboratório e uma biblioteca com publicações focadas em artes visuais e fotografia), incorporados ao acervo do IMS, em 2023. No caso do Zumví, o IMS tem atuado em colaboração com a organização soteropolitana, tanto no aconselhamento, como no apoio técnico em relação a preservação do acervo que se encontra em Salvador. Ainda que o IMS tenha validando este formato de parceria, o fato do conjunto fotográfico da organização permanecer em mãos negras deve ser celebrado.

 

“A decolonização não é uma postura; nenhuma instituição pode ser decolonial enquanto a sociedade não for decolonizada, e não existe um museu fora do mundo social que o criou. (…) A impossibilidade de decolonizar o museu está inserida num contexto europeu e global bem definido: de oferta de um antirracismo neoliberal e de um multiculturalismo pacificador, mas também de implantação de política de austeridade, em detrimento do pessoal dos pequenos e médios museus”. Esse pensamento da cientista política Françoise Vergès (1952), extraído do livro Decolonizar o Museu Programa de desordem absoluta (Ubu Editora, 2023), estrutura-se a partir do conceito de fugitividade, e serve como instrumento de reflexão para o que estamos presenciando atualmente nos museus ao redor do  mundo e, principalmente, para imaginarmos um futuro pós-capitalista, pós-racista e pós-patriarcal para a sociedade de modo geral. Mas também é de grande valor para observarmos que outras possibilidades de ação, mesmo longe de serem ideais, podem ser estratégicas. No caso em tela, tanto o coletivo Zumví, como o curador Hélio Menezes, ao estabelecerem relações com o IMS, recusam-se a abrir mão da autonomia curatorial e da possiblidade da subversão institucional. Essa desobediência, se não é uma desordem absoluta, tenciona a exposição. Zumví – Arquivo Afro Fotográfico, além de preservar o acervo do coletivo em Salvador, conta com uma equipe retinta de pesquisadores e consultores; a escolha das imagens e o posicionamento das obras no espaço expositivo não teve ingerência da instituição; e parte significativa do público visitante da mostra é formada por pessoas negras que, em comunhão com as imagens reunidas, tingem de preto profundo a unidade paulistana do IMS.

 

 

CONTRA OS QUAIS OS SORTILÉGIOS NADA PODEM 

Certa vez, o historiador malinês Youssouf Tata Cissé (1935-2013), em afirmação publicada na coleção Photo Poche (1982-1996), disse que: “(…) a fotografia foi por muito tempo, no Sudão francês (atual Mali), apanágio dos Toubâbou, dos franceses, conhecidos como Nampe den, ‘seres meio gênios vermelhos, meio humanos, contra os quais os sortilégios nada podem’”. O Mali, aliás, que abriga a milenar cidade de Timbuktu e que produz o belíssimo tecido bogolan, inscreveu seu nome na história das artes visuais por ser o território de ícones da fotografia mundial, como Seydou Keïta (1921-2001), Malick Sidibé (1936-2016) e Mountaga Dembelé (1919-2004) – este último, pioneiro da fotografia em Bamako, capital do Mali, um dos primeiros fotógrafos negros da região, fundador do primeiro estúdio fotográfico do país, em 1945, e conhecido por ter sido mentor e formador de inúmeros fotógrafos locais, entre eles Seydou Keita. Esse movimento de garantir a autonomia da captura de imagens do povo malinês, acompanhava a pujança do florescimento de uma vibrante elite urbana e cultural em uma sociedade marcada por uma forte segregação (havia, por exemplo, uma rígida separação entre os bairros residenciais europeus e áreas locais, bem como uma grande disparidade salarial entre os administradores europeus e os trabalhadores malineses), e tomou para si a missão de documentar o orgulho, a elegância e a modernidade emergente da sociedade local da época. Algo semelhante ao que fizeram, do outro lado do Atlântico, os fotógrafos e militantes Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, quando em 1990 idealizaram o Zumví Arquivo Afro Fotográfico, diante da urgência de registrar, preservar e valorizar a história negra sob um olhar negro. Também contra os quais os sortilégios nada podem, o coletivo Zumví desafia a convencionada concessão da população preta como um simples objeto fotográfico, para instalar uma outra ordem na fotografia baiana – cujas imagens do seu território e da sua gente ficaram nacional e internacionalmente conhecidas pelas lentes de fotógrafos brancos, tais como Mário Cravo Neto, Adenor Gondim, Pierre Verger, entre outros – fruto de uma espontânea herança transatlântica que não foge a disputa de produzir imagens de si próprio, fotografando seus pares, formando novos fotógrafos e, consequentemente, contribuindo para a preservação da memória e da dignidade do povo negro. Ainda que, conforme aponta o curador e crítico de arte Alexandre Araujo Bispo, em encontro realizado no próprio IMS, em São Paulo, em outubro de 2024, a objetificação seja um dado intrínseco a fotografia: “(…) qualquer pessoa fotografada é objetificada, uma vez que a fotografia não é uma pessoa, e sim um objeto. Então não tem como as pessoas não serem coisificadas na fotografia. Elas sempre serão coisificadas, não importa o status que elas tenham. A Rainha Elisabete, quando fotografada, ela também se torna uma imagem, e enquanto imagem ela vira uma coisa, ainda que seja a Rainha Elisabete. Isso para pensar que a objetificaçào não é apenas um problema de pessoas negras”.

 

 

 

Em destaque: Cecílio (de chapéu preto), tio de João Nagô, Manoel Rodrigues da Silva, conhecido como Dé Gatinho (à esquerda do noivo), parentes de dona Imbilina, matriarca de um da maiores famílias do Quilombo Rio das Rãs, Pedrinho e Joana. Bom Jesus da Lapa (BA). Foto: Meire Cazumbá, 1980.

 

 

 

Ao acessarmos a sala que abre a exposição, somos recepcionados pela monumentalidade que vem caracterizando as grandes mostras fotográficas de artistas negros apresentadas pela instituição, observada, por exemplo, nas recentes Zanele Muholi: Beleza Valente (2025) e Gordon Parks – A América Sou Eu (2025). Percorrer uma a uma as imagens da mostra Zumví – Arquivo Afrotigráfico requer tempo, paciência e disposição dos visitantes que se dispuserem a apreciar com calma cada uma das cerca de 400 imagens da mostra. Dividida em 16 eixos temáticos (Blocos Afro e Afoxés, Candomblé na Rua, Estética Negra, Estúdio, Feira de São Joaquim, Festas Populares e Irmandade da Boa Morte, Aulas de mestre King, Mandela da Bahia, Movimento Hip-Hop, Movimento Negro e Movimentos Sociais, Quilombo da Praia Grande da Ilha de Maré, Quilombo do Rio das Rãs, Retratos, Teatro Negro, Universo Reggae e Trajetória Zumví), e formada somente por fotografias em P&B – caraterística essa que impõe uma atmosfera nostálgica a exposição – Zumví – Arquivo Afro Fotográfico apresenta uma série de fotografias que conseguem estabelecer um interessante atravessamento entre fotojornalismo, documento histórico e o registro artístico em si, muitas vezes reunidos em uma única imagem. Essa amálgama se realiza não somente em razão da formação heterogênea do corpo de fotógrafos do grupo (o acervo do Zumví é composto por imagens de sete fotógrafos negros), mas também por uma certa personalidade intrínseca a fotografia preta brasileira – algo como um bem imaterial, uma tradição, um saber de pele – que se estabeleceu no século XX, capitaneada por nomes como Januário Garcia, Lita Cerqueira, Luiz Paulo Lima, Ari Cândido Fernandes, Vantoem Pereira Junior, Wagner Celestino, o próprio Lázaro Roberto, cujo fazer fotográfico é inseparável do caráter militante, sagrado e artístico.

 

“A missão do Zumví é preservar e promover a memória afirmativa afro-brasileira através da educação, do fomento e da difusão da fotografia feita pelo povo negro”, Lázaro Roberto.

Essa dimensão pode ser observada, por exemplo, em uma das fotografias da visita do então presidente da África do Sul, Nelson Mandela, à Bahia, em 1991, ao lado da esposa Winnie Mandela. Na imagem, um dos raros registros da exposição – se não o único – onde o fotógrafo explora objetos reflexivos da cena, o autor (não identificado), mesmo em meio ao caos que se formou quando da visita de Mandela, conseguiu usar o reflexo de um carro para criar uma outra dimensão para a cena, formando uma imagem dupla dos punhos serrados de Winnie, seu rosto e o rosto de Mandela, adicionando simetria, profundidade e dinamismo a fotografia que se edifica tanto enquanto documento histórico, como gesto artístico em si por composição sofisticada.

 

 

 

Chegada de Winnie e Nelson Mandela ao Aeroporto Internacional de Salvador (BA), 1991. Autoria não identificada.

 

 

 

Ao lado de Lázaro Roberto, as imagens selecionadas para a exposição indicam que Geremias Mendes – ator e um dos fundadores do Bando de Teatro Olodum, e cuja prática fotográfica se deu somente entre as décadas de 1980 e 1990 – possui uma sofisticada sensibilidade para a composição fotográfica dos seus registros. Sua fotografia ergue-se quase como uma grande pintura – onde as miudezas da cena são minuciosamente pensadas para estar onde de fato estão, e apresentam também uma simbiose entre o fotógrafo e as pessoas fotografadas, observada, por exemplo, nos olhares profundos ofertadas à lente de Geremias. Seus trabalhos dedicados à Romaria da Terra, na cidade de Monte Santo, em 1993, e as Cozinheiras do Mercado Modelo, em 1980, indicam essa elaboração conceitual e essa sensível proximidade.

 

 

 

Cozinheiras do Mercado Modelo, Salvador (BA). Foto: Geremias Mendes. Década de 1980

 

 

 

Um arquivo, de modo geral, refere-se a um meio que guarda memórias, rastros de uma criação, ou que reúne documentos organizados (físicos ou digitais) gerados por uma pessoa ou instituição. Bem como também pode significar o local onde esses itens são guardados, o móvel de armazenamento ou um bloco único de dados salvo no computador, por exemplo. Nenhuma dessas definições, contudo, dão conta do conjunto reunido no IMS. Pois ainda que a definição de arquivo e da preservação da memória se aproxime de uma das funções primárias da existência do Zumví – conforme anuncia o nome do grupo e da própria exposição – a linha tênue que separa o documento/arquivo fotográfico da fotografia artística cria, neste caso, uma terceira via: o documento artístico.

 

 

 

Manifestação de congada, Mogi das Cruzes (SP). Foto: Jônatas Conceição, 1978

 

 

 

Interessante observar momentos em que os fotógrafos abdicam do que seria um “simples” registro documental de determinada festa, evento ou solenidade, para proporem uma composição mais criativa e autoral à fotografia. Essa rebeldia inventiva que tenciona a função documental da fotografia aparece com frequência no conjunto das cerca de 400 imagens da exposição, destacando não apenas a subjetividade do fotógrafo, como também inserindo o coletivo como um movimento artístico, de fato. Observemos, por exemplo, essa imagem capturada por Jonatas Conceição, na Congada de Mogi das Cruzes, em São Paulo, em 1978.

 

 

 

Salvador (BA). Foto: Lázaro Roberto, 1998

 

 

 

Há em Zumví – Arquivo Afro Fotográfico uma sala com um pequeno punhado de imagens que muito se difere do restante das fotografias da exposição. Com suas paredes pintadas em vermelho, a galeria reúne alguns retratos feitos em estúdio por Lázaro Roberto. As poses, os elementos cenográficos, a luz cheia e a sútil comunhão entre o fotógrafo e as pessoas fotografadas assemelham-se muito a atmosfera criativa e emancipatória que marcou a escola africana de fotografia de estúdio, que tornou célebre nomes como Seidou Keïta, Malick Sidibé e, mais recentemente Omar Diop. Mas as semelhanças param na representatividade do sujeito negro ao ser fotografado por um fotógrafo negro. Uma vez que o objetivo de Lázaro com os registros foi criar postais para venda. Talvez por esta razão comercial, há uma certa universalidade das imagens. Os corpos negros, sendo que alguns registros do ensaio apresentam também homens de torço nu, são adornados com camisa e calça social, calça jeans, shorts, blusa de renda, brincos e colares de prata, e uma sutil maquiagem. Um guarda-chuva e um buquê de flores são outros elementos cenográficos que compõe os retratos dos jovens negros selecionados para o ensaio. Apesar do domínio da luz, do ótimo enquadramento e da boa intenção na direção do posicionamento dos modelos em cena, essas imagens, ao contrário da grande maioria das fotografias exibidas no restante da mostra, não evocam uma baianeidade, ou mesmo uma suposta brasilidade, encerrando-se em si próprias.

 

 

 

Da esquerda para a direita: SEYDOU KEÏTA Sem título, 1950-1952 // MALICK SIDIBÉ – Danser le Twist (Dance the Twist), 1965 // LÁZARO ROBERTO –  Sem título, Modelos: Lucineida da Silva e Miguel Oliveira – Salvador (BA), 1994

 

 

 

Essas fotografias feitas em estúdio, contudo, não definem a potência da fotografia de Lázaro. O estudo, a repetição, o amor ao ofício e a missão de registrar seus irmãos e irmãs de cor, colocam Lázaro Roberto como um artista de destaque do coletivo Zumví. A maioria das imagens da exposição são de sua autoria. A constante cobertura de festividades, manifestações e encontros treinaram Lázaro a estar atento as nuances que somente a sensibilidade de um grande fotógrafo é capaz de fazê-lo, como em um dos seus inúmeros registros da Festa do Bom Jesus dos Navegantes, em 1992, onde dois homens aparecem debruçados, um sobre o outro, a beira do mar. Lindíssimo registro!

 

 

 

Festa do Bom Jesus dos Navegantes, no bairro da Boa Viagem. Salvador (BA). Foto: Lázaro Roberto, 1992

 

 

 

Historicamente associada por agentes externos como manipuladoras da magia ritual, as religiões de matrizes africanas, com o axé vital dos seus terreiros, são manifestações contra as quais feitiço nenhum nada pode. E Zumví – Arquivo Afro Fotográfico, envolto pela atmosfera ancestral que o constitui, se apresenta como uma ode a majestosa presença negra baiana e ao seu território mágico, um doce sortilégio capaz de transformar qualquer momento em puro encanto.

 

 

 

 

 

 

 

/// ZUMVÍ – ARQUIVO AFRO FOTOGRÁFICO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nabor Jr.

Nabor Jr. é fundador-diretor da Revista O Menelick 2° Ato, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, jornalista e fotógrafo (utiliza o pseudônimo MANDELACREW). Atua na intersecção entre comunicação, artes e educação, com foco na produção cultural negra diaspórica.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.