novembro de 2026
VA-BENE ELIKEM FIATSI (crazinisT artisT): RESISTÊNCIA RADICAL COMO CAMPO DE AÇÃO
Luciane Ramos-Silva e Nabor Jr.
capa Va-Bene Elikem Fiatsi (crazinisT artisT)
Foi naquele início de dezembro de 2024, em Amsterdã, que vimos pela primeira vez a artista ganesa multidisciplinar, curadora, performer, mentora e ativista Va-Bene Elikem Fiatsi (1981), que se apresenta também por meio da persona artística crazinisT artisT. A grafia do seu nome com maiúsculas e minúsculas pontuais já anunciam uma existência tensionadora de fronteiras e classificações normativas.
A altivez e a franqueza de sua figura também contribuíram para conferir à sua presença algo de especial. Não por acaso, sobre sua cabeça, um escultórico penteado em trança aramada a coroava. Mais adiante, entenderíamos a densidade de sua atuação, calcada no trânsito entre arte e ativismo, e compreenderíamos que aquela presença, tão marcante desde o primeiro encontro, era também parte de uma prática artística que faz do próprio corpo um campo de ação.
O encontro aconteceu na sede da Framer Framed, espaço dedicado à arte contemporânea e à cultura visual, com exposições, seminários e programas públicos interessados em perspectivas críticas aos diversos colonialismos. Do lado de fora da instituição, a temperatura marcava 6°C. O céu encoberto e a típica sensação de frio do início do inverno contrastavam com o clima ameno que encontramos no interior do prédio de tijolos aparentes. Do lado de dentro, outra medida de temperatura se anunciava.
Participávamos de um painel sobre as relações entre arte, política e descolonização a partir das experiências do chamado Sul Global. Reunindo artistas e pessoas pesquisadoras, refletia-se sobre como iniciativas culturais poderiam fortalecer a autonomia, a liberdade artística e novas formas de colaboração, ao mesmo tempo em que questionavam estruturas de poder e modelos de pensamento herdados do colonialismo.
Deslocar as discussões teóricas e conceituais, centradas no campo das ideias, para o corpo e para a experiência é uma dessas ações que efetivamente questionam as estruturas de poder. Isso nos leva diretamente para a prática artística radical de Va-Bene. Suas performances, longe de serem apenas espetáculos, são recusas cortantes. Gestos que desafiam normas e expectativas a partir de um corpo que conhece a precariedade de existir em um lugar que ainda não é seguro para pessoas trans.
Entre a experiência de Va-Bene e a realidade brasileira há milhas de distância, mas algumas proximidades simbólicas: em uma paisagem onde pessoas trans estão entre as mais expostas às violências e à exclusão, sua trajetória evidencia a urgência de afirmar outras possibilidades, de presença e pertencimento.
Esta entrevista é um convite ao debate e também uma homenagem à potência artística de Va-Bene, e ao corajoso e fundamental trabalho que faz do corpo, da presença e da criação modos de resistência e de invenção.
Detalhe do ritual coletivo de cura Kall for Healing, em performance realizada no festival internacional Feral 2024. Foto: Bea Borgers
///ENTREVISTA
MENELICK2ATO: VA- BENE, VOCÊ PODERIA SE APRESENTAR E COMPARTILHAR UM POUCO SOBRE SUA TRAJETÓRIA COMO ARTISTA, TANTO EM GANA QUANTO INTERNACIONALMENTE, E FALAR SOBRE COMO SUA ARTE E SUA VIDA SE INTERLIGAM?
VA-BENE: Sou Va-Bene Elikem Fiatsi, também conhecida como crazinisT artisT — uma mulher trans e artista multidisciplinar, curadora, mentora, evangelista da arte e filantropa de Gana. Minha jornada começou em uma comunidade profundamente religiosa, onde me formei como professora e trabalhei no Serviço de Educação de Gana até 2010, enquanto também atuava como pastora em igrejas locais. No entanto, aos 29 anos, dei um salto transformador, deixando meus empregos para estudar arte na Universidade de Ciência e Tecnologia Kwame Nkrumah, onde me formei em pintura e escultura.
Em pouco tempo, abandonei as formas de arte tradicionais, removendo meu corpo da tela e levando-o para as ruas, a fim de confrontar a vulnerabilidade e lançar luz sobre grupos marginalizados, particularmente a comunidade queer e as supostas bruxas. Isso marcou o início da minha prática performática reconhecida globalmente. Como mulher trans em um país onde a comunidade LGBTQIA+ enfrenta desafios significativos, uso meu corpo para questionar estereótipos de gênero, justiça social, marginalização e violência.
Meu trabalho é caracterizado por um simbolismo poderoso, incluindo correntes, lama e nudez. Já me apresentei em todo o mundo, participando de residências artísticas de prestígio em diversos países.
Em 2018, fundei a residência artística internacional perfocraZe (pIAR) em Kumasi, Gana, criando um espaço seguro para a comunidade LGBTQIA+ e promovendo a colaboração artística. Sou também fundadora e diretora artística do crazinisT artisT studiO (TTO), da Our Railway Cinema Gallery (ORCG), do programa de bolsas de estudo e residência artística Va-Bene Scholarship and Mentorship Residency Abroad e da Trans African Ambassadors Network (TAAN). Todas essas iniciativas visam radicalizar as artes e promover o intercâmbio entre artistas, ativistas, pesquisadores, curadores e pensadores críticos, tanto internacionais quanto locais.
M2ATO: HÁ UM MOVIMENTO FORTE E CRESCENTE DE REAPROXIMAÇÃO ENTRE OS POVOS DA DIÁSPORA AFRICANA E OS DO CONTINENTE AFRICANO. NO CASO DO BRASIL, EM PARTICULAR, EXISTEM LAÇOS HISTÓRICOS NOTÁVEIS COM DIVERSOS CONTEXTOS, COMO BENIN, NIGÉRIA, MOÇAMBIQUE E GANA. NAS RELAÇÕES ENTRE BRASIL E GANA, ESPECIFICAMENTE, DESTACAM-SE CERTAS CONEXÕES CULTURAIS, COMO A PRESENÇA DA COMUNIDADE TABOM DESDE O FINAL DO SÉCULO XVIII E AS INICIATIVAS DIPLOMÁTICAS QUE SE INTENSIFICARAM NA DÉCADA DE 1960. ESSA BUSCA MÚTUA FOMENTOU REDES DE COLABORAÇÃO ARTÍSTICA, EXPRESSÃO E INTERCÂMBIO POLÍTICO E INTELECTUAL. NO ENTANTO, AINDA PERSISTEM LACUNAS SIGNIFICATIVAS NA FORMA COMO AS COMUNIDADES DA DIÁSPORA E AFRICANAS SE PERCEBEM E SE RELACIONAM. VOCÊ PODERIA COMPARTILHAR SUAS REFLEXÕES SOBRE ISSO?
VB: Bem, a conexão e o desejo de diminuir a distância entre os africanos no continente e aqueles na diáspora representam um esforço revolucionário rumo à descolonização e à libertação negra. No entanto, devemos reconhecer todas as nuances, complexidades e camadas estabelecidas pelo colonialismo, mesmo existindo de outra forma. Não podemos discutir nenhuma forma de luta humana, vulnerabilidades e opressões sem mencionar classe, raça, educação e outras formas de personalidade que devem ser questionadas e sobre as quais devemos refletir. Estou muito entusiasmada com a crescente necessidade e urgência de uma aliança africana em todo o mundo, reconhecendo os longos séculos de divisão. No entanto, se não levarmos em conta nossas posições, podemos estar reproduzindo o que a branquitude, o colonialismo e a escravidão estabeleceram. As pessoas no continente sofreram um impacto que as faz sentir menos importantes ou inferiores quando comparadas às da diáspora, uma vez que a branquitude e o Ocidente têm sido usados como ferramentas de definição de identidade. Espero, portanto, que, ao nos reconectarmos, o façamos com sensibilidade, empatia, solidariedade e compaixão.
Detalhe da instalação Monument of Second Skin (Monumento da Segunda Pele), de Va-Bene Elikem Fiatsi (crazinisT artisT). A obra é formada por roupas usadas identificadas como femininas e não-binárias, que a própria artista colecionava para seus rituais, instalações e performances antes de sua transição. Em seu estúdio em Kumasi, Va-Bene construiu uma vasta e íntima instalação como um santuário, guarda-roupa e monumento da segunda pele, e que foram apresentados no nGbK (Nova Sociedade de Arte Visual), em Berlim, em 2025. Foto Wataru Murakami.
M2ATO: QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS ENFRENTADOS PELO PROJETO DE RESIDÊNCIA ARTÍSTICA INTERNACIONAL PERFOCRAZE (PIAR)? PODERIA NOS DAR UM CONTEXTO SOBRE O RELACIONAMENTO DO PROJETO COM DIFERENTES INSTITUIÇÕES E COM O GOVERNO? GOSTARÍAMOS DE ENTENDER OS OBSTÁCULOS QUE UM PROJETO DE APOIO À COMUNIDADE ARTÍSTICA E LGBTQIA+ ENFRENTA PARA OPERAR E SE MANTER ATIVO EM GANA. E QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS CONQUISTAS DO PROJETO?
VB: O projeto de lei anti-LGBTQ+ proposto intensificou significativamente os ataques diários e a perseguição à comunidade trans, especialmente àqueles que não passaram por transição médica para se alinharem às identidades cis binárias. Entre os mais vulneráveis estão aqueles em Gana identificados como Kojo Besia, oba-berima e nyornugborme, cujas categorizações muitas vezes divergem das compreensões ocidentais da cultura trans.
Por exemplo, em setembro de 2025, líderes Zongo em Kumasi, cidade onde residimos, ameaçaram travestis, principalmente Kojo Besia, que participavam de cerimônias de casamento. Também observamos um aumento substancial nos casos de estupro por emboscada e chantagem nos subúrbios de grandes cidades, incluindo Kumasi. Recentemente, pessoas transgênero têm sido atraídas para casas isoladas, hotéis e outros locais sob falsas promessas de dinheiro, relacionamentos ou itens desejados.
Apesar desses desafios, estamos ativamente engajados em um diálogo multifacetado e explorando os perigos associados por meio de vários projetos e colaborações. Nosso programa residencial “Radicalisando a Arte”, por exemplo, oferece uma série de oficinas presenciais e interativas voltadas especificamente para pessoas trans, realizadas todo mês de janeiro. Essas oficinas enfatizam os riscos inerentes, muitas vezes subestimados, enfrentados pela comunidade trans. Nosso objetivo é motivar e capacitar os participantes a usar estrategicamente seus talentos criativos para educar efetivamente um público mais amplo, fortalecendo a si mesmos e suas comunidades contra essas ameaças. Por meio de uma combinação de expressão artística, pensamento crítico e desenvolvimento de habilidades práticas, os participantes desenvolvem estratégias impactantes para aumentar a conscientização e promover a resiliência.
Va-Bene durante apresentação do ritual coletivo de cura Kall for Healing, em performance realizada no festival internacional Feral 2024, focado em rituais urbanos e performances artísticas de resistência, realizado em Bruxelas, na Bélgica. Foto: Bea Borgers.
M2ATO: A CIDADE DE KUMASI, ONDE VOCÊ MORA E ONDE ESTÃO LOCALIZADOS SEU ESTÚDIO CRIATIVO E A SEDE DA PIAR, NÃO É APENAS A SEGUNDA MAIOR CIDADE DE GANA, MAS TAMBÉM É CONHECIDA COMO A CAPITAL HISTÓRICA DO REINO ASHANTI. CONSIDERANDO ESSE FATO HISTÓRICO, CARREGADO DE SIMBOLISMO E CONHECIDO MUNDIALMENTE COMO UM EXEMPLO DE RESISTÊNCIA AFRICANA À COLONIZAÇÃO EUROPEIA E TAMBÉM POR SUA RIQUEZA CULTURAL, VOCÊ OBSERVA ALGUMA INFLUÊNCIA ANCESTRAL ASHANTI EM SUA PRÁTICA ARTÍSTICA OU MODO DE VIDA? COMO VOCÊ AVALIA A RELAÇÃO DO REINO ASHANTI, QUE AINDA EXISTE HOJE COMO UM ESTADO TRADICIONAL CONSTITUCIONALMENTE PROTEGIDO DENTRO DA REPÚBLICA DO GANA, COM A VIDA CONTEMPORÂNEA EM KUMASI?
VB: Em Gana, acredito que não existe uma experiência de vida singular e isolada, atrelada a uma região específica, embora isso também possa ser uma opinião e experiência pessoal. Em vez disso, adaptamo-nos e integramo-nos de forma fluida às novas realidades e tradições de onde quer que estejamos. Nasci e cresci como uma Ewe na região de Volta e me mudei para a região de Ashanti aos 29 anos, mas minha experiência lá foi no contexto da vida universitária, que é muito diferente de viver em uma aldeia Ashanti com as gerações mais velhas e suas tradições potencialmente ancestrais. Eu nem sequer falo o Twi, uma das línguas Akan, então minha experiência pessoal geral pode se limitar a familiaridades com o inglês.
Portanto, encarar o Reino Ashanti como uma experiência cultural distinta a ser buscada parece tanto exótico quanto uma forma de “masturbação diaspórica”. Digo isso porque a vida ganense se tornou muito europeizada desde o colonialismo. Essa identidade unificada explica por que Gana existe como uma única nação, em vez de uma coleção de reinos separados. No entanto, é importante reconhecer que tradições distintas — como as culturas Ashanti, Ewe, Damba e Krobo — existem. Para realmente compreender e vivenciar essas diferenças, é preciso buscar ativamente contextos culturais específicos, como funerais, casamentos tradicionais e rituais, especialmente considerando a significativa influência do cristianismo nessas práticas atualmente.
Colaboração fotográfica entre Va-Bene Elikem Fiatsi (crazinisT artisT) e Ashe Gardner. Cortesia da residência artística internacional perfocraZe.
M2ATO: CONTE-NOS SOBRE SUA EXPERIÊNCIA NO BRASIL EM 2019, QUANDO VOCÊ VEIO A CONVITE DO FESTIVAL DE ARTE NEGRA DE BELO HORIZONTE (FAN).
VB: Devo confessar que, quando cheguei ao Brasil pela primeira vez, em 2019, senti como se estivesse voltando para casa. Não sei explicar o que aconteceu com o meu espírito, mas foi como se eu já tivesse morado lá antes, apesar de ser a minha primeira visita. Minha primeira parada foi em Rio Preto, para o FiTrio. Alguns meses depois, voltei a Belo Horizonte. Quando compartilhei minha profunda experiência e sentimentos com brasileiros e estrangeiros, fui imediatamente aconselhada a não visitar a Bahia. Disseram-me que eu não ia querer voltar a Gana se o fizesse, porque ainda não tinha vivenciado de fato o que afirmava ter sentido no Rio e em Belo Horizonte. Vim para o festival e encontrei equipes e famílias incríveis com quem colaborar. No entanto, tenho plena consciência de que visitas temporárias podem mascarar a realidade completa, censurando as experiências daqueles que vivem lá permanentemente. Essa mesma dinâmica pode ser observada quando qualquer estrangeiro visita Gana, podendo não presenciar ou se deparar com a violência diária enfrentada pela comunidade LGBTQIA+.
M2ATO: SUAS PERFORMANCES PÚBLICAS (COM MANIFESTAÇÕES FÍSICAS DE DOR, APRISIONAMENTO, TINTA VERMELHA, CORRENTES, ALGEMAS E RESTRIÇÃO DE MOVIMENTOS), QUE INVARIAVELMENTE ABORDAM A VIOLÊNCIA CONTRA AS COMUNIDADES NEGRAS E LGBTIQA+, SÃO VISUALMENTE IMPACTANTES E INTENCIONALMENTE RADICAIS. POR QUE VOCÊ ESCOLHEU A PERFORMANCE COMO SUA LINGUAGEM EXPRESSIVA? E COMO ESSE CORPO POLÍTICO, QUE DESAFIA AS PERSPECTIVAS NORMATIVAS DE GÊNERO, É RECEBIDO EM SEU COTIDIANO COMO ARTISTA INTERNACIONAL?
VB: Minha identidade como ativista, artista, performer e “artivangelista” é inseparável da minha vida; é tudo o que sou e pelo que vivo. Acredito que os artistas são a espinha dorsal espiritual e os curadores da sociedade, e é por isso que a arte que crio com meu corpo deve ser proposital e significativa tanto para mim quanto para minha comunidade. É abraçar o desconforto que nos oferece cura e libertação.
A dor que manifesto em minhas performances representa uma resistência radical, convidando os espectadores a confrontarem nossas lutas coletivas, nosso sofrimento e nossa mortalidade. É um convite para que o público e qualquer pessoa que se depare com meu trabalho reflita e contemple nossa existência transitória. Simultaneamente, símbolos como correntes, crucificações públicas e sangue servem como lembretes cruciais das feridas de nossos ancestrais e da violência que sofreram. Esses traumas históricos são, infelizmente, reencenados hoje por meio de ideologias cristãs e políticas de extrema-direita. Esta é a minha vocação.
Sacred Wounds (2024): Ritual íntimo onde a artista investiga a cura como um meio de acolher os desconfortos, dores, medos e ansiedades de pessoas transgênero e queer.
M2ATO: COMO VOCÊ VIVENCIOU E LIDOU COM AS TRANSFORMAÇÕES DA SUA IDENTIDADE DE GÊNERO NO CONTEXTO CULTURAL E RELIGIOSO DE GANA, MARCADO POR LEGADOS COLONIAIS E NORMAS CONSERVADORAS? QUAIS CAMINHOS OU ESTRATÉGIAS ESTAVAM DISPONÍVEIS PARA VOCÊ NESSE PROCESSO?
VB: Metaforicamente, “declarei-me morta” para enfrentar os desafios de uma jornada de transição, os horrores do sentimento antigênero e meu ativismo artístico radical. Isso em antecipação a um futuro de “horrores indizíveis” que, uma década depois, se materializou em um projeto de lei anti-LGBTQIA+.
A performance e a intervenção pública tornaram-se imediatamente as ferramentas através das quais moldei minha própria identidade e rituais de transformação.
Optei por deixar a igreja, uma decisão que acarretava o risco de me afastar da família e dos amigos. Isso foi particularmente difícil dada a importância da família na cultura ganesa, um receio que muitos partilham. No entanto, nos anos que se seguiram, construí uma grande família escolhida, tanto local quanto internacionalmente, e alguns dos meus familiares e amigos perdidos até retornaram, incluindo meus irmãos e primos.
Ritual de Tornar-se, da série froZen, onde a artista documentou fotograficamente seus rituais diários de limpeza, vestimenta e maquiagem. Obra apresentada na nGbK (Nova Sociedade de Arte Visual), em Berlim, em 2025. Foto Wataru Murakami.
M2ATO: ALÉM DA SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL, A COMUNIDADE LGBTQIA+ EM GANA POSSUI ALGUM APOIO POLÍTICO OU INSTITUCIONAL INTERNO QUE SE POSICIONE PUBLICAMENTE CONTRA A POLÍTICA ANTI-LGBTQIA+ DO PAÍS?
VB: Apesar do apoio internacional contra o projeto de lei anti-LGBTQIA+, a comunidade queer no Gana carece de apoio político e institucional interno significativo. No entanto, uma forte coalizão de 18 professores, conhecida como “os 18 grandes”, incluindo a proeminente professora emérita Takyiwaa Manuh, condenou abertamente o projeto de lei e defendeu os direitos queer como direitos humanos. Além disso, alguns aliados influentes dos meios musicais e do meio artístico se manifestaram contra o projeto de lei e os ataques à comunidade queer.
O cenário político do Gana apresenta um desafio singular. Ao contrário de muitas nações ditas progressistas, ambos os principais partidos políticos são fortemente influenciados por ideologias conservadoras e pela igreja. Isso dificulta a obtenção de uma representação política legal, visível e atuante para a comunidade LGBTQIA+, seja dentro ou fora do parlamento, embora alguns apoiadores atuem discretamente nos bastidores.
Va-Bene Elikem Fiatsi (crazinisT artisT)
M2ATO: O CAPITALISMO, AO SUBMETER TODAS AS ESFERAS DA VIDA À LÓGICA MERCANTILISTA, PERMEIA CLARAMENTE TAMBÉM AS ARTES. ESSA DINÂMICA COMPLEXA PODE COMPROMETER O PENSAMENTO CRÍTICO E A LIBERDADE CRIATIVA DOS ARTISTAS. COMO CURADOR, QUAL É A SUA PERCEPÇÃO DO PANORAMA ARTÍSTICO EM GANA? EXISTEM ARTISTAS QUE, MESMO DENTRO DESSE SISTEMA, OPTAM POR DESAFIAR SUAS ESTRUTURAS, CONFRONTANDO, POR EXEMPLO, O LEGADO COLONIAL E AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO?
VB: O dinheiro, muitas vezes visto como um mal necessário em um mundo transformado pelo colonialismo, não é sinônimo de capitalismo. Embora o comércio seja ancestral, o capitalismo, a meu ver, é um sistema construído sobre exploração, poder e controle.
A arte ganesa está vivenciando uma onda de urgência e ambição política, combatendo ativamente sistemas opressivos e questionando aquilo que não podemos abordar em espaços comuns. Isso não significa que os artistas não ganhem dinheiro com seu trabalho; pelo contrário, estão surgindo diversas categorias de artistas. Alguns priorizam as vendas para sobreviver ou para ter uma vida luxuosa, enquanto outros se concentram em fazer com que suas vozes sejam ouvidas, independentemente do ganho financeiro ou das dificuldades. Nenhuma das abordagens deve ser julgada. A verdadeira ameaça reside naqueles que exploram qualquer um dos grupos para obter poder pessoal, controle e acumulação de riqueza.
O sistema de classes do Gana cria uma divisão, concedendo a alguns artistas mais privilégios e estabilidade econômica, independentemente de suas obras serem vendidas ou não. Embora eu nunca tenha vendido uma obra de arte, tenho o privilégio de me sustentar e apoiar muitos outros jovens artistas e não artistas por meio da minha prática. Isso é possível porque tenho fontes de renda alternativas provenientes de apresentações, palestras, conversas sobre arte e painéis como artista de renome internacional. É algo pelo qual trabalhei ao longo dos anos, sem dúvida, mas, sim: tornei-me mais privilegiada do que muitos dos meus amigos LGBTQIA+. Essas oportunidades são frequentemente inacessíveis para muitos jovens artistas ganeses, a menos que comercializem sua arte para sobreviver, o que, naturalmente, pode impactar sua forma de criar e levá-los a criar para atender às demandas do mercado. Compreender essa dinâmica é fundamental para nossa luta comum, a fim de sermos compassivos e empáticos com todos.









