janeiro de 2026

O CABELO AZUL DE SONIA E AS VEREDAS DO SEU BORDADO ENCANTADO

Nabor Jr.

 

 

 

 

 

 

 

fotos mandelacrew
capa: Sonia Gomes (ao centro), em registro digitalmente manipulado, posa na abertura da exposição do fotógrafo Luiz Paulo Lima.

 

 

 

 

 

 

Fazia muito tempo que não via a artista Sonia Gomes (Caetanópolis, MG – 1948). Não que um dia tenhamos sidos muito próximos. Mas em um tempo não tão distante assim, costumávamos nos encontrar, com certa frequência, em algumas vernissages, exposições e eventos culturais na cidade de São Paulo. Sua agenda cada vez mais movimentada de compromissos – especialmente desde o momento que trocou BH por SP – muitos dos quais internacionais, somada ao necessário e valioso tempo de reclusão produtiva em seu ateliê, e a pujante agenda cultural paulistana, provavelmente forjaram esse cenário de desencontros. Se bem me lembro, a última vez que nos vimos foi nos corredores da 35° Bienal de São Paulo, intitulada coreografias do impossível, com a curadoria coletiva, e transatlântica, de Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel.

 

 

 

A lei natural dos encontros e visitas: Sonia Gomes, uma colega da artista e eu, na 35° Bienal de São Paulo (esq.), e um registro de uma de minhas visitas ao seu ateliê, em São Paulo.

 

 

 

Conheço a artista Sonia Gomes há quase 10 anos, quando ela decidiu morar na cidade de São Paulo. Quem me apresentou sua produção foi o querido colega Alexandre Bispo. De lá pra cá, ela já me recebeu algumas vezes em seu ateliê. Nesses encontros, a entrevistei, fotografei algumas das suas obras e detalhes do seu espaço de trabalho, levei pesquisadores e interessados em saber mais sobre sua biografia… Sonia sempre foi uma anfitriã cordial e generosa. Mas após nos esbarrarmos fortuitamente na já distante 35° Bienal, nossos contatos se resumiram a algumas poucas mensagens de texto, ora trocadas por WhatsApp, ora pelo direct do Instagram. Na maioria da vezes a iniciativa partia de mim, a convidando para alguma abertura de exposição, roda de conversa… ao passo que também aproveitava a oportunidade para saber como ela estava. E embora nem sempre interagíamos, de fato, por meio dessas mensagens, e tão pouco Sonia se fizesse presente nos eventos aos quais havia lhe chamado, não pensei duas vezes em convidá-la para a abertura da recente mostra que organizei: Luiz Paulo Lima: Num instante, o gesto – O retrato fotográfico em perspectiva.

 

Cúmplice da exposição que reuniu, na Embaixada Preta, no centro de São Paulo, cerca de 15 fotografias do veterano e militante fotógrafo Luiz Paulo Lima (Porto Alegre, RS – 1955), me preparei para chegar com antecedência do horário previsto para a abertura, marcada para às 18h. Contudo, tragado pelo caótico trânsito vespertino da cidade, atravessei as portas da galeria pouco mais de 15 minutos após o horário estabelecido. Ainda assim, estava tranquilo, uma vez que não é incomum que eventos deste tipo na cidade – e, especialmente, na mencionada faixa de horário – ofertem alguns minutos de tolerância aos convidados. Além do mais, não esperávamos receber um grande público naquela quinta-feira a noite, mesmo cientes que, depois de longos anos, fosse a primeira individual de Luiz Paulo Lima na cidade – reconhecido, especialmente pelos mais velhos da nossa comunidade, por seu valoroso trabalho de documentação da gente preta e suas organizações, especialmente na  São Paulo dos anos 1980 e 90.

 

A primeira pessoa que vi ao chegar na abertura da exposição foi Sonia Gomes, com sua elegância discreta, milimetricamente ornada por um camisão jeans oversized de tom escuro e com generosos bolsos nas laterais, uma saia longa vermelha que cobria parcialmente seu par de tênis de cano baixo da Nike, e um lenço de desenhos geométricos abraçado ao pescoço, cujos tons, harmoniosamente dialogavam com o restante do seu arrojado outfit. Para quem não sabe, Sonia tem uma profunda relação com a moda, ou melhor dizendo, um genuíno interesse em se expressar por meio das duas vestes, visto que desde muito jovem cultiva o hábito de costumizar suas próprias roupas, empregando retalhos, bordados e miudezas do cotidiano e assim transformando peças como jaquetas, calças, saias e até guarda-chuvas em objetos texturizados, coloridos e autênticos. Conforme Sonia havia adiantado na mensagem que me endereçou, ela estava acompanhada do seu assistente, Paulo, e quando a avistei, ambos estavam observando com atenção as fotografias de Luiz Paulo organizadas pela galeria. Seus cabelos curtos, levemente cacheados e pintados de azul, contrastavam com o fundo amarelo de uma das paredes da sala.

 

Seria o cabelo azul de Sonia uma homenagem a artista plástica, e sua antiga assistente, Juliana dos Santos, conhecida por sua investigação da cor azul presente na flor Clitória Ternátea? Ou uma referência ao artista mineiro Mestre Ataíde, que utilizava o azul de modo sublime em suas pinturas sacras? Ou ainda, uma alusão a música O Amor é Azul, lindamente interpretada por sua conterrânea (e contemporânea) Clara Nunes? Fato é que a tonalidade do seu cabelo, algo um tanto indefinido entre o índigo blue e o azul-turquesa, lindamente adornando seu orí, me fizeram refletir tanto sobre a quimbanda do seu bordado quase místico, como também sobre sua rebeldia criativa e livre, que contrasta com a sobriedade da sua personalidade tranquila e da sua presença leve e calma.

 

Antes de deixar a exposição, Sonia convidou a todos para a abertura da sua individual Sonia Gomes – Barroco mesmo, no Instituto Tomie Ohtake, com curadoria de Paulo Miyada, que aconteceria na semana seguinte.

 

 

 

Vista panorâmica da exposição “Sonia Gomes – Barroco, mesmo”, no Instituto Tomie Ohtake

 

 

 

Representada pela influente galeria Mendes Wood DM (e pela Pace Gallery, de Nova Iorque), acumulando participações nas bienais de São Paulo e Veneza, com obras em acervos de importantes instituições do país e exposições em todo o mundo, Sônia Gomes consolidou-se, há pouco, é verdade, como uma das mais importantes artistas contemporâneas do Brasil. Portanto, como já era de se esperar, sua vernissage mobilizou muita gente. Ainda assim, tivemos tempo de trocar algumas poucas palavras para, em seguida, Sonia ser absorvida pelas demandas naturais do seu protagonismo naquela noite. Aproveitei a oportunidade para visitar sua exposição com calma. Logo na entrada da ampla sala de pé direito alto – localizada no piso superior do Instituto Tomie Ohtake – tendo uma visão panorâmica da montagem, saltam aos olhos o vermelho quente e vibrante que adorna as paredes. Longos pedaços de tecido branco transparente – posicionados do teto até o chão – se erguiam enquanto elementos cenográficos que conduzem, e induzem, a visitação, dividindo o percurso expográfico em pequenos núcleos que, em razão da transparência dos tecidos, ora escondiam, ora estimulavam um diálogo mais fluído entre as obras.

 

 

 

Vista da exposição “Sonia Gomes – Barroco, mesmo”

 

 

 

Interessante observar que o tecido semicircular que ocupa o centro da sala cria também, pela proposital incidência das luzes, um jogo de sombras onde muitas das obras exibidas se duplicam no espaço por meio da projeção de suas silhuetas. Essa equação formada por luz baixa, tecido branco, amarrações flutuantes e sombras retorcidas, resulta numa ambientação meio fantasmagórica, um gótico tropical que não se encerra na expografia, pois também se reflete em alguns dos poucos elementos figurativos presentes na obra da artista. A projeção de luz baixa proporciona uma sensação expositiva imersiva, com as obras sendo banhadas por uma iluminação direta, enquanto o percurso que conduz os visitantes entre um trabalho e outro possui uma luminosidade mais retraída.

 

Se por um lado o vermelho quente e vibrante que tinge as paredes da sala remete ao colorido e a voluptuosidade do barroco brasileiro, criando uma simbiose com a paletas de cores da artista, por outro, a disposição ordenada e sóbria das obras na galeria contrasta com um aspecto simbólico caro ao barroco brasileiro: o volume e a sobreposição. É aí que entra a faceta barroca da produção de Sonia, muito bem observada por Myada. Pois a impressão que temos é que a obra da artista confia silenciosamente em si mesma, sem a necessidade de uma expografia invasiva para impor seu barroquismo.

 

 

 

Sônia, em seu ateliê, em janeiro de 20026.

 

 

 

Minhas recordações mais vivas do barroco brasileiro, aliás – e que de certa maneira moldaram minha relação com o movimento, especialmente no campo das artes visuais – se apresentaram pelas mãos do artista e curador Emanoel Araujo (1940-2022). Primeiro, em alguns aspectos que contornavam a poderosa mostra De Valentim a Valentim: A escultura brasileira – Século XIX ao XX, de 2009, e depois, de modo mais visceral, com a monumental Barroco: Ardente e Sincrético – Luso-Afro-Brasileiro, de 2017, quando Araujo propôs uma releitura do barroco a partir da sua estética mestiça, evocando a ancestralidade de alguns dos seus principais protagonistas afim tanto de reverenciá-los, como também para construir pontes com a contemporaneidade. Ambas exposições foram realizadas no Museu Afro Brasil, em São Paulo.

 

Em Sonia Gomes – Barroco mesmo, conseguimos observar o caráter simbólico desse movimento que ganhou, no Brasil, identidade própria ao misturar influências europeias com a realidade local, como, por exemplo, nas formas retorcidas dos seus objetos, ora suspensos no ar, ora beijando o solo ou saltando das paredes. Também destacam-se no barroquismo de Sonia os excessos das suas ornamentações flutuantes, a volúpia das curvas retorcidas das suas amarrações… características que acompanham a produção artista desde as intervenções que fazia, ainda menina, em suas próprias roupas.

 

“Os africanos e seus descendentes se apropriaram do movimento do barroco, sobretudo porque as corporações de ofícios mecânicos contribuíram para a ascensão social. Ardente em sua tropicalidade e sincrético no lado profano das festas religiosas – no bumba-meu-boi do Maranhão, na cavalhada de Goiás, na coroação dos reis do Congo, nos reisados de Alagoas e nos cortejos dos maracatus de Pernambuco – o barroco é um movimento contínuo na cultura brasileira”. Emanoel Araujo, no catálogo da exposição Barroco, Ardente e Sincrético – Luso-afro-brasileiro (2017).

 

Ao proporem uma leitura contemporânea e desconstruída do barroco tal qual o conhecemos, Sonia e Paulo contribuem não somente para as discussões entorno deste movimento artístico determinante na construção da cultura e identidade brasileira no período colonial, responsável por consagrar, nas artes visuais, nomes constantemente esquecidos pelos mais jovens, como Aleijadinho e Mestre Valentim. Ao mesmo tempo que, ao iluminarem a faceta barroca presente na produção da respeitada artista, colaboram para a valorização de um estilo inexplicavelmente subestimado, pois se apresenta como aquela que talvez tenha sido a primeira manifestação artística com características próprias do país. “Houve época em que o termo (barroco) era pejorativo, mesmo no terreno específico da história da arte; mas desde Heinrich Wöllflin, o grande historiador do fim do século XIX, deve entender-se apenas como a tendência estilística maior que sucede ao Renascimento, e na qual predominam certos comportamentos formais próprios, não menos legítimos que os de qualquer outro momento da cultura”. (Olívio Tavares de Araújo, em O olhar amoroso, Momesso Edições de Arte, São Paulo, 2002).

 

Em Sonia Gomes – Barroco, mesmo, pela primeira vez observei, entre costuras aparentes, sobreposições e composições de tecidos diversos, rompantes de proposições figurativas que apresentam uma expressividade meio melancólica, e que talvez revele uma Sonia Gomes na intimidade da sua introspecção. Ou seja, se não há, na produção mais recente de Sônia Gomes, o que poderíamos apontar como uma “novidade”, tão pouco um “progresso” – e isso não é reduzir o seu trabalho, pelo contrário, é como se a sua obra já estivesse se cumprido integralmente – há  por certo relações. Entre linhas, botões, costuras e alfinetes surgem, quando menos esperamos, elementos figurativos que desafiam a simetria humana com suas cabeças grandes e corpos esguios. Parecendo-se ora com os conhecidos espantalhos das lavouras de milho, ora com bonecos vodu, mas sem sua função ritualísticas. Ainda assim, apresentam-se, em suas complexidades, a representação simbólica de algum anônimo, ou espírito, que habitam o mundo visível. Os olhos vazios e a estética naïf desses seres lembram um pouco as cerâmicas de Mestre Vitalino. Assim como a melancolia parece ter sido atravessada pelo universo gótico de Tim Burton e seus seres macabros.

 

 

 

Colares produzidos por Sonia Gomes e presentes na exposição “Sonia Gomes – Barroco, mesmo”

 

 

 

Sonia é um artista na acepção da palavra, pois mais do que dominar técnicas e ter um profundo talento artesanal no manuseio dos materiais com os quais trabalha, a arte molda seu modo de ser, de ver e de interagir com o mundo. Basta trocar algumas poucas palavra com ela para ter essa percepção. Não é por acaso, portanto, que a fluidez entre corpo, pensamento e gesto, que resultam em trabalhos tão sensíveis, nos confunde. Sonia empresta uma ancestralidade muito particular ao seu criar, ainda que esteja, também, densamente assentada na contemporaneidade, conforme nos revelam os utensílios cotidianos ressignificados por suas mãos. Essa coexistência é um mérito do seu fazer artístico.

 

 

 

Detalhes de obras da artista em cartaz na exposição “Sonia Gomes – Barroco, mesmo”

 

 

 

Se o Barroco, enquanto movimento artístico, também foi fundamental para a hegemonia católica no novo mundo, desde os tempos remotos de 1500, Sonia subverte essa vocação impondo uma liberdade criativa que não se prende a dogmas e doutrinas pré-estabelecidas. Esquivando-se, para isso, de uma atmosfera que ainda hoje paira no universo das artes visuais e que se pretende emancipatória, inclusiva, mas que na verdade estimula a prática de fórmulas repetidas e tolhe a criatividade artística. Comprometida com as complexidades da sua própria subjetividade, com sua história de vida, com os desafios do seu tempo e com a arte em si, Sonia encontrou no seu bordado encantado o mensageiro das suas inquietações, desejos e modo de estar no mundo, por isso é única, potente e um pouco misteriosa, assim como os seres de olhar infinito que habitam sua obra e o azul quase turquesa que enfeita seu orí .

 

 

 

 

 

 

 

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SÔNIA GOMES – BARROCO, MESMO
INSTITUO TOMIE OHTAKE
ATÉ 08 DE FEVEREIRO DE 2026

 

 

 

 

 

 

Nabor Jr.

Nabor Jr. é fundador-diretor da Revista O Menelick 2° Ato, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, jornalista e fotógrafo (utiliza o pseudônimo MANDELACREW). Atua na intersecção entre comunicação, artes e educação, com foco na produção cultural negra diaspórica.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.