junho de 2014

YELLOW FEVER*: notas sobre a despigmentação artificial de pele entre mulheres negras

Luciane Ramos Silva

 

 

Foto Mario Macilau

 

 

 

 

 

 

A despigmentação artificial de pele através do uso de produtos cosméticos e medicamentos que removem a melanina protetora da cútis é um tema áspero em diversas sociedades africanas porque além das questões relacionadas à saúde pública escancara também a manipulação de identidades provocada pelo chamado mundo globalizado.

 

Nigéria, Quênia, Senegal, Congo e Camarões são alguns exemplos de países onde o comércio poderoso desses produtos existe há décadas e se fortalece anualmente através de uma engrenagem complexa que envolve mídias de massa, processos históricos e imposição de padrões de beleza. Pessoas  de diferentes faixas etárias elegem o clareamento como uma forma de obter reconhecimento social.  No discurso dos usuários destes produtos, em sua maioria mulheres, a pele escura é um obstáculo para oportunidades sociais, trabalho e principalmente para o “mercado amoroso”, pois seus maridos e pretendentes preferem mulheres de pele clara.

 

O QUE LEVA TAIS MULHERES A SE SUBMETEREM A RISCOS E DESTRUIÇÃO DE SI MESMAS?

 


Quem te ensinou a odiar a cor da tua pele?
Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo?
Quem te ensinou a odiar o formato do seu nariz e dos seus lábios?
Quem te ensinou a odiar a si mesmo do topo da cabeça a sola dos pés?

 (Trecho do discurso proferido por Malcon X, em Los Angeles, 1962)

 

 

O desejo de ter uma “pele mais bonita” é parte de um imaginário construído ao longo dos séculos e pautado por referências e símbolos negativos associados à cor da pele.

 

A missão pseudo-civilizadora disseminada pelo colonialismo em diversas partes do globo trouxe em seu pacote modelos de virtude ligados exclusivamente aos padrões estabelecidos pelos europeus. Assim, os modelos ideais de organização social, de saberes técnicos, científicos ou filosóficos eram vinculados apenas ao mundo do colonizador.  Às peles escuras restava o fardo do primitivismo, da inferioridade intelectual, criminalidade, corrupção e depreciações de todas as naturezas.

 

Assim, a percepção de mundo era ditada pelas lentes europeias e aos OUTROS restava a obediência. É certo que, ao longo dos tempos, incontáveis vozes questionaram e criaram formas de implodir essas imposições, mas elas permanecem no imaginário social até os nossos dias – basta observarmos que, ainda hoje, exemplos de refinamento e beleza raramente estão relacionados às estéticas negras.

 

A mentalidade colonial varreu a autoestima dos povos colonizados, causando sérios danos psicológicos que se revelam nos sentimentos de inferioridade e na admiração extrema da beleza europeia.  Dejetos deixados pelo colonialismo permanecem à flor da pele e são reforçados diariamente pela mídia graúda. Qual a cor daquele homem bem sucedido, daquela mulher de status, daquela família feliz que aparece na sua televisão?

 

 

 

A COR QUE ATRAPALHA

Considerado um fenômeno social em países da África Sub Saariana, a despigmentação artificial afeta em grande proporção a população feminina adulta.  Produtos de manipulação caseira ou soluções industrializadas milagrosas movem um mercado lucrativo e em crescimento vertiginoso. Recentemente a pop star Nígero-Camaronesa, Dencia, lançou uma linha de produtos para clareamento de pele chamada Whitenicious. Sendo ela própria a garota propaganda da marca, a cantora exibe sua pele absurdamente mais clara em relação à cor natural.

 

Apesar de serem livremente comercializados, esses produtos possuem substâncias que destroem os tecidos, causam complicações como feridas, queimaduras, infecções e manifestações cancerígenas. É impressionante observar as mãos, pés, braços e faces de mulheres que usaram esses artigos por longos períodos. Os danos são terríveis.

 

Carrie Mae Weems
I Looked and Looked to See What So Terrified You
Louisiana Project
Chromogenic prints
2003

 

 

 

NA PELE E NAS PROFUNDIDADES 

Ao ouvir as opiniões das consumidoras dos produtos, percebemos que o clareamento de pele é tido como capital social – e a popularidade dos cosméticos mostra isso. Em países como Índia, China, Japão e Coréia movimentos semelhantes ocorrem, com características culturais específicas, mas fortemente influenciados por imagens de beleza padronizadas a partir do modelo europeu.

 

E esse debate é problema dos outros? Creio que não. Vale lembrar a nossa  realidade brasileira: padrões beleza impostos em campanhas publicitárias, telejornais, novelas, revistas   e afins expõem a cegueira dos que consomem sem reclamar e a perversidade dos que mantem a engrenagem funcionando.

 

A globalização, tal qual imposta pelos países do norte, ignora nossas especificidades. Não é à toa que a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado), recentemente vetou a participação da atriz Camila Pitanga e do ator Lázaro Ramos como casal de apresentadores do sorteio dos grupos da Copa do Mundo no Brasil, justificando o veto com a seguinte frase: “Trata-se apenas de tornar o casal da copa mais palatável ao gosto europeu”. Gosto europeu?

 

 

Por essas e outras seguimos aprisionados em imagens que não nos representam e depreciam o que somos. O fato de muitos homens negros não se relacionarem  com mulheres de pele preta e de que estas frequentemente vivenciam situações de invisibilidade diante deles, não é um fator casual ou uma questão de gosto, mas sim outra consequência da desvalorização e preconceitos acumulados ao longo de nossa história.

 

No Brasil a prática da despigmentação ainda não virou moda, mas os cânones de beleza estão a anos luz de distancia das estéticas negras. Alisamentos, chapinhas, extensões de cabelo, cirurgias plásticas e outros desamores continuam a esmagar a imagem de nós mesm@s e a podar a autonomia de nossos corpos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* Yellow Fever  (Febre amarela): expressão popularizada nos anos 70 que faz irônica referência à cor produzida pelos produtos de despigmentação na pele das mulheres africanas assim como  ao frenesi criado com o alto consumo. O músico nigeriano Fela Kuti (1938 – 1997) lançou um álbum em 1976 com esse nome, criticando a prática.

 

 

 

 

 

Luciane Ramos Silva

Luciane Ramos Silva é antropóloga, bailarina, mobilizadora cultural e membro do Conselho Editorial da Revista O Menelick 2º Ato. Doutoranda em Artes da Cena e mestre em antropologia pela UNICAMP. Bacharel em Ciências Sociais pela USP. Atua nas áreas de artes da cena, estudos africanos e educação.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.