março de 2011

OUTRA ÁFRICA: NA TERRA DOS HOMENS ÍNTEGROS

Luciane Ramos Silva

 

 

 

fotos Luciane Ramos-Silva

 

 

 

 

Burki o quê? Burkina Faso!. Foi assim que respondi à uma colega enquanto compartilhávamos o roteiro do que seria o meu próximo destino ao continente africano. Esse pequeno  – e pouco conhecido – país, incrustado na África do Oeste, à primeira vista pode não ter os atrativos mais saborosos para aqueles que desejam conhecer as Áfricas. Sem saída para o mar e, portanto, dependente dos portos de países vizinhos; sem grandes saídas econômicas, tendo a agricultura como carro chefe; sujeito à longas e cruéis estações de seca muito peculiares do Sahel (faixa que separa o Saara das terras mais férteis do sul); sem muitos recursos naturais, que o façam cair nas audaciosas graças das grandes potências européias… Sem mais o quê?

 

O relato das ausências, carências e fracassos da África (vide “campanha” encabeçada por noticiários, ONG´s, livros didáticos, e por toda longa história pessimista narrada a respeito do continente africano) nós já conhecemos bem. Minha breve, porém, atenta passagem por Burkina Faso captou outras imagens e movimentos.  É sobre essa outra África, parafraseando o economista Serge Latouche, crítico radical da noção de desenvolvimento economicista, que considero importante falar.

 

Liberto das amarras coloniais francesas em 1960, Burkina Faso viveu tempos de intensas mudanças sob a liderança de Thomas Sankara (1949 – 1987), que ao tornar-se presidente em 1983, aos 33 anos, implementou um programa revolucionário de reforma econômica e social, priorizando a educação,  a saúde, auto-suficiência e transparência na gestão das coisas públicas. Seus esforços também se direcionaram para a emancipação das mulheres, nomeando-as para cargos no governo e colocando em questão temas como a mutilação genital feminina e a poligamia.

 

Sankara mudou o nome do país para “Terra dos homens íntegros” (tradução de Burkina Faso), nome originário de duas línguas locais – a moré e a diulá – que parece resumir o desejo do jovem presidente, assassinado em 1987, de construir um estado para todos. O sonho durou pouco, mas o sentimento nacional de orgulho e respeito ecoa até os nossos dias nas expressões do povo burkinabê.  Eis uma biografia insuspeita, frente à postura costumeira das lideranças africanas contemporâneas – celebrizadas por arbitrariedades e corrupções – que caminham na contramão das ações anticoloniais dos líderes das independências. Será exclusiva a trajetória de Sankara? Uma exceção? Creio que não. A convicção de uma África consciente de seu passado e capaz de caminhar com os próprios pés esteve presente nas ações de outros ativistas, professores e intelectuais nacionais. O historiador Joseph Ki-Zerbo (1922 – 2006) é um exemplo. Se ultrapassarmos a “África oficial”, encontraremos boas surpresas.

 

Um pouco de asfalto e muito chão de terra pavimentaram minhas andanças pela capital Ouagadougou, terra das motocicletas!  As duas rodas são o principal meio de transporte – um vai e vêm auto organizado. Diante de poucos semáforos e guardas de trânsito, o povo se vira. É também no esquema do “se virar” que boa parcela da população dribla os sérios índices de desemprego. O chamado trabalho informal é ocupação de grande parte da população economicamente ativa de Ouagadougou. Vale o destaque para a participação das mulheres no fomento da economia atuando no comércio de gêneros alimentícios em feiras, mercados e na circulação de tecidos consumidos nas ruas da cidade – espaços efervescentes. Na engrenagem capitalista, a sociedade burkinabê parece estar órfã na informalidade. Mas será adequado o termo “informal” considerando os arranjos criativos e intercâmbios entre reciprocidades, sabedorias locais e lógicas de mercado?

 

 

Na poeira, olhos que bem enxergam

 

No começo do mês de março, Burkina Faso sediou o maior festival de cinema do continente africano, o FESPACO.  O evento mobiliza realizadores, artistas, instituições e grande parte da população em um acontecimento cultural que inclui apresentações de música, teatro e dança entre as exibições cinematográficas. Paulistana que sou, ciente do acesso restrito da maioria de nossa população à mostras de cinema, saúdo essa iniciativa que leva a sétima arte ao povo.  Relevante é também o projeto do cineasta Gaston Kaboré (nascido em Bobo Dioulasso, segunda maior cidade do país, em 23 de abril de 1951). Trata-se do IMAGINE – Centro de aperfeiçoamento que proporciona formações na área do cinema, televisão e multimídia. Idrissa Ouedraogo (1954) e Dani Kouyaté (1961) são outras referências do cinema local.

 

 

Irene Tassembedo: Saber dançar e saber viver

 

“Para mim, a dança é a vida de todo dia”, palavras da coreógrafa, bailarina e atriz Irene Tassembedo, diretora da EDIT, Escola Internacional que tem como missões fundamentais a formação profissional em dança, o progresso de uma comunidade artística engajada e a valorização da arte/cultura como potenciais campos para o desenvolvimento durável. A escola agrega também a formação em música e canto, impulsionada pelos elementos de convivência comuns às culturas africanas: a vida coletiva, o “nós” em detrimento do “eu”, a lógica da reciprocidade e o respeito aos mais velhos.  “Dançamos com nossa cultura”, ressalta Irene. Seu espírito sagaz, disposição e reconhecimento das diversidades, além de um olhar certeiro sobre a importância da modernidade no porvir das danças africanas, fizeram-me reconhecer nela uma grande mestra. Que o Brasil possa, um dia, conhecê-la!

 

 

 

 

 

 

Luciane Ramos Silva

Luciane Ramos Silva é antropóloga, bailarina, mobilizadora cultural e membro do Conselho Editorial da Revista O Menelick 2º Ato. Doutoranda em Artes da Cena e mestre em antropologia pela UNICAMP. Bacharel em Ciências Sociais pela USP. Atua nas áreas de artes da cena, estudos africanos e educação.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.