novembro de 2015

IMAGENS LATENTES: CIVILIZAÇÃO, HORIZONTES E PERCEPÇÕES SOBRE O SENEGAL

Luciane Ramos Silva

 

 

 

 

 

fotos Luciane Ramos-Silva

 

 

 

 

 

 

 

Subsistem no imaginário brasileiro marcas profundas e memórias rasas da ideia única sobre as Áfricas. Imagens de falência e desespero que guardadas as proporções de veracidade, são fruto da destrutiva presença colonial bem como do imperialismo ocidental e seus modelos de progresso e desenvolvimento.

 

Desconstruir a visão hegemônica disseminada pelos espaços bem sucedidos do Ocidente  implica em revisitar a presença africana na história mundial mas também perceber  as Áfricas de transformações em curso, de participação no capitalismo contemporâneo  e nas trocas culturais – sem perder a percepção das relações de força.

 

Um cotidiano de adjetivos gastos insiste em prevalecer: natural, pitoresca, autêntica, exuberante, primitiva, hiper-sexualizada, inata, de descomunal resistência física, incapaz de se desenvolver. Nega-se sua alteridade em prol de um modelo de civilidade.  Todo esse pacote de certezas sobre o que os povos de lá  “são” rebate diretamente na percepção sobre os povos negros daqui. Não há ingenuidade nisso. Só não sabe quem tem o privilégio de não perceber.  Reconhecer o corpo negro como portador de conhecimento é exercício que apenas as  militâncias e alguns setores muito específicos da academia tem empreendido.

 

Faz-se importante problematizar as relações até hoje construídas com o continente, fazer pontes de conexão sul-sul e descobrir as diversidades de sua dimensão concretamente continental, labiríntica, multifacetada e inquieta – mais que reforçar o exotismo do outro.  Para quando África? A indagação do historiador burkinabê Joseph Ki-Zerbo, segue  pungente. E afinal, quão “outras”  são essas Áfricas para o Brasil?

 

 

ESPELHOS EM MOVIMENTO

 

Deslocamos o corpo para o Senegal, o pais da África do Oeste geograficamente mais próximo das Américas, pouco menor que o estado do Paraná , a sete horas reais  de distância partindo de São Paulo  ou aproximadamente 20  horas tendo em vista que não existem mais voos diretos até Dakar, dada a ausência de cias aéreas brasileiras interessadas em abrir voos diretos ao continente.

 

Numa rápida pincelada na história do país, lembramos que a região testemunhou entre os séculos XIII, XIVe XV sucessões de importantes Impérios e Reinos: Império do Mali, Wolof, Sine e Salum  e Império do Fouta Touro, são alguns deles.  No decorrer do período mercantilista o tráfico de escravos envolveu portugueses, holandeses, ingleses e franceses em disputa.  Após a conferência de Berlim (1884/1885) o Estado francês criaria a chamada África Ocidental Francesa, organizando suas possessões em unidades territoriais denominadas comunas. O  atual território do Senegal sediou as 4 primeiras dessas organizações. Eram as cidades de Saint-Louis, Dakar, Goré e Rufisque, A arquitetura colonial dessas cidades são memória daqueles tempos. Aos moradores desses locais foi concedida cidadania francesa e privilégios políticos negados ao resto da população.

 

A missão civilizadora francesa estava baseada na assimilação e uniformização cultural.

 

Assim, o francês tornou-se língua oficial, estendendo-se para a educação formal, a despeito das outras línguas faladas no território, entre elas o wolof, serere, fulfulne, mandinka e diola. A tentativa de assimilação chegava ao ridículo de se afirmar que os senegaleses eram descendentes dos gauleses, tal qual o povo francês.

 

Mas, por força da cultura, nos cotidianos, na vida das ruas, ônibus, centros culturais, e lares os idiomas falados são os locais, pois mora alí o afeto e a estrutura do tecido social.

 

Leopold Sedar Senghor (1906 -2001), poeta, intelectual e primeiro presidente do Senegal independente, almejava o encontro de diversas culturas com as africanas , numa perspectiva de “doação e recebimento.  Propôs ações ímpares no campo das artes, como a fundação da primeira escola pan-africana de dança – o Mudra Afrique, dirigido pelo coreógrafo belga Maurice Bejard ao lado da bailarina e coreógrafa Germaine Acogny  ou ainda sua atuação ao lado de  Aimé Césaire e Léon Damas  na criação da Negritude, movimento de caráter literário e político que afirmava os  valores do mundo negro. Sua atuação foi marcada também por contradições, fruto de uma experiência aprofundada no pressuposto francês da assimilação, assim sua relação com o Estado francês sempre foi marcada pela aliança e suporte.  Não por acaso a França seguiu como única parceira financeira, gestora oficial da moeda, o CFA,  entre outras benesses que garantia monopólios à metrópole e ao Senegal o eterno papel de fornecedor  de matéria prima. Foi no governo Abdulay Wade (1926 -), também controverso e problemático, que iniciou-se o processo de abertura de mercados e diversificação de parcerias. Alguma luz para o exercício da soberania.

 

O pais possui uma trajetória democrática estável, testemunhando ao logo de sua historia poucas circunstancias de violência ou conflitos, se comparado com muitos dos seus vizinhos na África do Oeste. Exceção feita pelos fatos ocorridos na região de Casamance, sul do pais, onde um movimento democrático existente desde os ano 80 confrontou as foças do governo.

 

94% da população é muçulmana. Um islã africanizado e com feições derivadas da tradição Sufi – o chamado Muridismo, organizado em confrarias ou irmandades sob o comando de um líder espiritual – o marabu.

 

 

Há infinidades de desafios para o desenvolvimento, economia dependente do setor primário, parcos investimentos em melhorias no secundário e indicadores sociais no campo da saúde, educação, infra estrutura em eletricidade, lixo, enchentes… Mas há que se conhecer e compreender essa “crise africana” de perto  e não somente através das lentes da mídia oficial – que fortalece a visão paternalista de que a as nações africanas  precisam ser salvas pelo Ocidente.

 

Nós vamos ganhar essa guerra porque não vamos esperar  as autoridades para fazer o que queremos fazer ( Madzoo, grafiteiro senegalês). Os caminhos para uma boa governança e breque das elites perversas tem sido reivindicado pela juventude senegalesa, apesar da ainda frágil sociedade civil local. Essa  nova geração consciente da engrenagem histórica pouco a pouco desfaz o sonho de partir e quer investir no continente;  sabe dos conflitos, mas está disposta a encara-los com criatividade. Cada geração deve descobrir sua missão, como dizia Fanon.

 

 

Os protestos da juventude em Dakar contra a recandidatura de Abdoulaye Wade em 2012, chamados pelas mídias sociais de Primavera Senegalesa, encorajaram movimentos organizados  e deram visibilidade para uma juventude  comprometida com a circulação de ideias em prol de democracias estabelecidas fora dos partidos políticos e  brotando de uma  sociedade civil que já não tolera com a mesma tranquilidade regimes militares e de partido único que só fazem agravar as desigualdades sociais. Junto às  novas tecnologias essas jovens opiniões se disseminam desejando outras ordens para viver.

 

 

 

TRAJETOS NO ATLÂNTICO SUL

 

Os contextos sócio culturais do Senegal não se ligam diretamente historicamente à experiência  do Brasil africanizado – os povos africanos que fertilizaram a cultura brasileira vieram predominantemente de outras regiões, sobretudo as áreas do tronco linguístico Bantu e das regiões sudanesas de presença yoruba e ewe/fon. Mas dada a dimensão transversal da diáspora, muitos elementos são familiares à experiência brasileira – desde os simbólicos até a própria experiência viva da coletividade, da família extensa, dos quintais – peles das  pessoas e dos lugares.

 

 

 (…) A grandeza do negro
Se deu quando houve este grito infinito
E o muçulmanismo que contagiava como religião
Ilê-aiyê traz imensas verdades ao povo fulani

 

Senegal faz fronteira com Mauritânia e Mali
Os Seres ê ê ê, a tribo primeira que simbolizava
Salum, Gâmbia, Casamance, seus rios a desembocar
Mandigno,Tukuler, Uuolof, são os povos negros
E uma das capitais mais lindas hoje se chama Dakar (…)

 

 

Ecos de movimentos musicais nascidos nos anos 80, quem não lembra da banda baiana Reflexu´s  cujo “Canto ao Senegal”, emplacou nas paradas de sucesso?   O tempero militante da produção musical da época, fruto próprio das poéticas dos blocos afro de Salvador, trouxe uma letra repleta de informações específicas sobre o pais africano  numa composição para a massa das grandes rádios e dos programas de auditório tais quais Cassino do Chacrinha. Além de citar na letra  grupos culturais e cidades, fizeram menção a informações históricas sobre a constituição dos reinos do Senegal anteriores à colonização francesa.  Isso foi em 1987.

 

Algumas aproximações entre contextos senegaleses e brasileiros se deram a partir da arte. As turnês mundiais do Balé do Senegal, companhia criada em 1960 no bojo da construção do estado Independente e suas tentativas de construção de identidade. Suas turnês mundiais incluíram o Brasil diversas vezes. Alí as danças, cantos e músicas levadas ao palco reforçavam repertórios estéticos e poéticos tradicionais e que realçavam identidades étnicas. Controversamente essas mesmas etnicidades eram marginalizadas nos espaços sociais senegaleses , mas essa é uma outra história.

 

 

Em edição de 1971 do Correio da Manhã do Rio de Janeiro, o fundador do Balé Nacional, Maurice Senghor (1926-2007) afirma: “queremos saber qual a reação do público diante de nossa cultura. O balé não é só dança. Não queremos que o povo brasileiro aprenda só esse lado da nossa arte.” O depoimento do criador da Cia revela a dimensão de difusão cultural que tinha o grupo, mas a história mostra que, muitas vezes,  sobressaia do olhar publico uma interpretação semelhante a que fitava qualquer outra forma de arte africana: queriam-na exótica, percebiam-na rudimentar.

 

De fato o público brasileiro àquela época tinha olhares estigmatizantes.  Pesquisando um dossiê sobre as passagens do balé no Brasil , que não  foram  poucas, deparei-me com pérolas do racismo à brasileira. Uma jornalista escrevendo para o O Jornal ( data)  descreve: Domando o cabelo rude, as senegalesas conseguem com essas trancinhas um efeito singular”.

 

Excursionando pelo Rio de Janeiro, Belém, Porto Alegre, São Paulo, Salvador, entre outras cidades, os corpos em cena, as narrativas, o rico instrumental executado ao vivo e todo um mundo de bens simbólicos levados para cena, apresentavam Áfricas  ainda desconhecidas. Não menos tocada pelo estranhamento, mas com um pensamento mais arejado sobre as dimensões culturais da dança  é a crítica que Helena Katz faz , em 1980 na Folha de SP, intitulada “Círculos de uma dança de poder” ,  quando da vinda do Balé ao teatro Cultura artística: Mas não é pela naturalidade que emana do espetáculo que se pode supor não existir adestramento dos membros do grupo. Eles fazem coisas fantásticas. Dançam, por exemplo, em cima de longuíssimas pernas de pau, desenvolvem quantidade de giros tão assombrosa que desperta inveja em qualquer bailarino clássico apolíneo, e, acima de tudo, atingem uma velocidade nada menos que alucinada.

 

O advento do Festival Mundial de Arte Negra – FESMAN –  pode ser considerado um lugar de cruzamento do Brasil negro com o Senegal. Organizado pela célebre revista  Presence Africaine, até hoje viva na pequena rue des Écoles em Paris,  em parceria com  o governo de  Senghor, o encontro representou importante marco das artes e da cultura negra no mundo. Sua primeira edição, em 1966 , recebeu personalidades fundamentais para a história das artes – Aimé Cesaire, Duke Ellington, Langston Hughes, Olga de Alaketu, Mestre Pastinha, Gilberto Gil, estiveram presentes.  Em sua terceira edição, em 2009, o festival trazia como tema  o Renascimento Africano e tinha o Brasil como homenageado.  A polêmica e  custosa estátua do Renascimento africano, inaugurada durante essa edição do Festival , provocou a pergunta : que renascimento é esse? Talvez a possibilidade dessas Áfricas serem do mundo; Erguerem-se não só a partir dos quesitos de boa governança;  Alcançarem não só uma inserção no mercado global mas , sobretudo, no trânsito pela dignidade humana. Mas de fato o  monumento ficou na grandiosidade .

 

Ainda no campo da cultura de massa duas figuras são emblemas importantes da cultura senegalesa: os  músicos  Youssouf N´dour e  Baba Mal ,   ícones da nação. Parênteses específico a  Youssouf N´Dour, uma espécie de business man – além de empreendedor no campo da música, lançou livros, candidatou-se a presidente e tem uma série de ações no que podemos chamar de capitalismo social. Ao caminhar nas ruas de Dakar, nos Car Rapide ou car sete place, o Mbalax,– gênero musical criado por N´dour fundindo  musica afro cubana com o sabar, gruda na memória.

 

 

MIGRAÇÃO – DESAFIOS PARA O MUNDO CONTEMPORÃNEO

 

O tema da migração tem gritado forte frente aos contextos de transformações gerados pela pseudo globalização e toda degradação que faz brotar. No Senegal, as narrativas bem sucedidas ou trágicas de pessoas que rumam para Europa à procura de uma vida melhor são constantes.  Ilhas Canárias, Itália, França, destinos desejados e chegada incerta.  São percursos recorrentes finalizados por muralhas, arame farpado, botes naufragados em auto mar ou metralhadora em riste. O passaporte senegalês, tal qual de todos cidadãos africanos, não tem os carimbos necessários.  E como o capital não promete igualdade a ninguém, o sonho de “fazer a França”, começa a mudar e a América do Sul passa a receber outros fluxos migratórios.

 

 

 

SENEGALESES NO BRASIL

 

Entre as populações migrantes recentes aportadas por aqui, a senegalesa tem presença expressiva. Em inúmeros centros comerciais homens jovens esguios de um negro retinto, certamente escuro demais para o nível tolerável de melanina da nossa carnavalesca democracia racial, circulam com suas maletinhas repletas de miudezas eletrônicas e objetos de uso cotidiano como capas para celular, fones de ouvido e relógios. São em geral homens que chegam com o objetivo de trabalhar  e acumular rendimentos para si  e para suas famílias.

 

Muitos chegam com vistos de um ano e outros pedem refúgio por questões econômicas. Muito embora ainda não tenhamos dados precisos, São Paulo, Acre, Paraná e Rio Grande do Sul  são estados  que tem recebido um número relevante dessas populações.  Segundo o Conare, 2.575 senegaleses entraram com pedido de  refugio em 2014.  Uma passada rápida por centros comerciais próximos às  estações de metrô paulistanas, bastam para reconhê-los  em atividade – metrô Vila Madalena, Capação Redondo, República … Se é árduo ser  negro/negra num convívio racista como o de São Paulo, ser negro e africano pode ser pior, já que essa pessoas chegam no país sem a devida consciência da perversa especificidade do racismo por aqui.  Quanto mais forte o negro da tua pele, mais afiada é a faca que te corta a carne.

 

De fato a entrada no Brasil é menos dolorosa em comparação com países da Europa. Veremos se o Estado e a sociedade civil  brasileira serão capazes de olhar para essas chegadas sem os óculos do racismo, abrindo caminho para novas formas de comunidade e mobilização de diásporas.

 

 

 

SABAR – CHARME  CONTUNDENTE

 

Já era tarde da noite quando, do quarto ouví uma orquestra percussiva forte e envolvente. O corpo seguiu como se por hipnose. Ao virar a esquina uma multidão se agrupava. Adultos, crianças e sobretudo jovens. Cantavam em coro de vozes femininas algo em wolof. O canto, tal qual a música era coletivo. Uma convocação. Num enorme círculo as pessoas se espremiam para assistir ou participar das performances. Alguns traziam no canto da boca aquela apetrecho tão comum no dia a dia – o  Sotcho – raiz que cujo composto ativo embranquece e fortalece os dentes.  Na plateia uma área de distinção para visitantes se destacava – eram toubabs confortavelmente sentados e vestidos estranhamente com modelitos senegaleses. No centro do círculo,  moças e rapazes discorriam seus discursos de corpos em provocação. Tal qual a dança a roupa falava por si – muito brilho e acessórios estilosos. Meia noite em Yoff. Dormir seria impossível. ( Diário de campo.  Janeiro de 2010)

 

O Sabar é um complexo cultural que agrega dança  e música originário das famílias de griôs wolof. Muito popular em Dakar, tornou-se um dos fenômeno os agregador presente em  batizados, casamentos, aniversários e outras cerimônias

 

Na sua base um  repertório de passos predominantemente aéreos,  que exigem leveza e agilidade. Quem dança possui um conjunto específico apreendido da tradição e clareza em relação ao tempo, ao ritmo e ao passo correspondente, mas é a capacidade de articular esse repertório na improvisação que traduz o apelo sedutor e complexo do sabar.

 

 

Os códigos da música e da dança são apreendidos na convivência do cotidiano. Existe uma formula com base na repetição de  5 tempos, que é o fundamental, mas depois que se compreende a estrutura pode-se jogar com ela. Intrincado mistério. Grande parte das cerimônias coletivas tem o sabar como elemento importante. A dança e o  charme característico de quem participa da festa. A exuberância se revela no corpo que dança mas também no vestuário. Discrição não é o mote. Além de casamentos, batizados e cerimônias para abertura de eventos esportivos, há sabares organizados por figuras populares ou célebres, que normalmente bancam a estrutura para a festa acontecer na rua. São os chamados Tanebers. – espaço certo para grupos de bailarinos, visitantes e estrangeiras curiosas e atrevidas – como os grupos de mulheres japonesas que frequentam cursos de verão em Dakar.  Vê-las solando nas festas é formidável.

 

Os estilos e temas são constantemente  reinventados a partir do repertório tradicional – fass, barambaye (bar mbaye) , tieboudiane… são alguns dos temas. Há uma certa irreverência, quase uma ironia na performance do bailarino que sola ao centro do grande círculo: Essa irreverência é articulada através de diversos códigos de comunicação entre o corpo que dança e o percussionista solista. A estrutura musical, composta por instrumentos com vozes variadas, normalmente 6 tocadores,  produz uma unidade rítmica explosiva e complexa. Na família instrumental do Sabar pelo menos 6 diferentes tonalidades permeiam a instrumentação: O Tchow, N’derr, M’bung e o Talbut. Membranofones de formatos e dimensões variadas. O aprendizado dessa intricada comunicação entre música e dança passa por cantar o ritmo, apreende-lo na oralidade antes de ir para a mecânica do corpo – não por acaso, quando aprendemos devemos cantar o ritmo até que o corpo absorva e “fale”.

 

Outras urdiduras poderiam ser feitas a partir da cultura musical e corporal do sabar. Sendo intrínseco da cultura senegalesa, é um fato social para perceber relações de gênero, de raça e outras vielas. Como cantavam os amigos de lá: Tchosa nurel ken dukodiel diko saganê … Não se brinca com a cultura/tradição de um país.

 

 

 

SAÑSE

 

O belo desperta sensações no espírito. A imponência  dos vestuários senegaleses, em estilos, composições de designes e cores chama atenção para uma cultura do vestir sofisticada e impactante.  Não trata-se só de “explosão de cores” ou vibração descontrolada. São paletas variadas e cujos critérios de escolhas vem de imaginários criativos inseridos num circuito de criação, produção, venda e personalização da roupa.

 

Mulheres e homens revelam sañse – vestir-se elegante .

 

Atenho-me  aqui as criações feitas a partir dos tecidos industriais, porque viraram mote para obras de muitas realizadoras do campo da moda no Brasil – de empreendedoras da arte negra à curiosas e oportunistas.

 

Os processos de produção dos tecidos industriais da Costa Ocidental africana originam-se na tradição do batik javanês. Num intrincado processo de séculos de trocas e transformações, cuja mediação incluiu relações de forças desiguais, sobretudo a partir do envolvimento das grandes industrias têxteis inglesas e holandesas, pessoas criam designs , estampas e principalmente mulheres vendem, nomeiam e compram esses tecidos. Enquanto os homens ocupam a parte de produção manual  de roupas – do corte à finalização da peça.  Esses trânsitos mobilizam de maneira considerável a economia. São tecidos com base em algodão cujos designs mostram infinidades de padrões, símbolos locais e estrangeiros,   históricos ou mesmo desenhos casuais ligados à vida cotidiana como celulares, malas, computadores e peixes. Parecem similares, mas seus processos de produção são diferentes – dai as nomenclaturas: dutch wax, imi wax, java, fancy prints.

 

 

A Sotiba, indústria têxtil criada em 1951 na capital Dakar, uma das maiores empresas de tecido da região durante tempos foi das poucas sobreviventes à investida do capital estrangeiro.  A empresa foi uma das produtoras líderes de tecidos e fechou sua fábrica de Dakar pela força avassaladora das imitações de origem chinesa e indiana, cujos baixos custos solaparam as industriais locais.

 

Apesar da demanda local por tecidos e da grande produção de algodão (o Senegal é o segundo maior produtor da região) importa-se tecidos da Ásia e Europa. Complexidades da engrenagem do capital.

 

Quando essas estéticas viajam pras terras de cá abrem veredas para re- imaginarmos os conceitos estéticos monocromáticos forjados pelo ocidente moderno onde sobressaem os tons de cinza e preto relacionados a uma pseudo sóbriedade. Nesse modelos talvez  falte inspiração pela vida, capacidade de dar repostas com cor, com ânimo.

 

 

 

COMPASSO DE ESPERA?

 

 

O Senegal de transformações em processo tem desafios profundos. O movimento existiu e existe.  Na obra do historiador  Cheik Anta Diop (1923- 1986) e suas teorias que reconectaram a África pré colonial ao resto do mundo; na filmografia de Ousmane Sembene (1923-2007); nas gentes e trajetórias que se misturam nas ruelas  do mercado Sandaga; na ironia do filme  Hyenas, de Djibri  Diop Mambety ( 1945-1998);  na literatura feminista de Mariama Ba ( 1929-1981);  na crítica efusiva de Fatou Diome; Nas produções militantes e três-chic da estilista Adama Ndeye, criadora da Fashion Week Dakar; no  legado de Doudou Ndiaye Rose ( 1930- 2015), mestre que fez ecoar a música senegalesa no mundo; na narrativa trágica e contundente dos Tiralleurs , antigos combatentes; no solo J´Accuse do bailarino Pape Ibrahima N´diaye; No Acro Roller, movimento para prática  de patins e skate de Dakar; No festival de dança Kaay Fecc; nos auto retratos do artista visual Omar Victor Diop; No sabar contundente da percussionista Ndeye Seck;

 

Ao contrário daqueles séculos em que haviam portas sem retorno, hoje escolhemos as portas que desejamos atravessar.

 

 

 

 

 

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Ofereço estas linhas à memória viva do cineasta El-Hadji Samba Saar (1968-2010), que em 2009 apresentou-me  as diversas faces da cena urbana de Dakar. Samba partiu cedo e repentinamente, mas deixou, além da lembrança de sua sincera generosidade,  uma importante filmografia.

 

 

 

 

Luciane Ramos Silva

Luciane Ramos Silva é antropóloga, bailarina, mobilizadora cultural e membro do Conselho Editorial da Revista O Menelick 2º Ato. Doutoranda em Artes da Cena e mestre em antropologia pela UNICAMP. Bacharel em Ciências Sociais pela USP. Atua nas áreas de artes da cena, estudos africanos e educação.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.