janeiro de 2020

TRÊS TARDES QUENTES

Nabor Jr.

 

 

 

 

 

 

WALTER FIRMO
Arthur Bispo do Rosário
Fotografia
71 X 102 cm
1985
RJ

 

 

 

 

 

 

Quando Walter Firmo Guimarães da Silva entrou pela primeira vez na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, no interim entre a primavera e o escaldante verão carioca de 1985, para fazer aquele que se tornaria o registro fotográfico definitivo da “intimidade” manicomial de Arthur Bispo do Rosário (aliás, Firmo é autor de um dos raríssimos registros fotográficos existentes do artista), ele já era um dos grandes fotógrafos brasileiros do século XX.

 

Aquela altura, aos 48 anos de idade, Firmo já acumulava quase três décadas dedicadas a fotografia (em especial ao fotojornalismo). E para ficarmos em apenas alguns exemplos da vigorosa carreira até ali edificada, já constavam em seu currículo um Prêmio Esso de Reportagem, uma passagem pela equipe da revista Realidade, e a produção da icônica fotografia feita para a revista Manchete, de Pixinguinha, que mostra o músico com seu saxofone na mão, numa cadeira de balanço. Uma imagem icônica, belíssima, considerada tecnicamente perfeita, e que viria a definir o generoso fazer fotográfico do artista, conhecido como “o mestre das cores”.

 

 

 

“(…) quando vemos aquela foto, vemos mais do que Pixinguinha pelos olhos de Walter; vemos o Pixinguinha que Walter pensou, a cena que passou na sua imaginação antes que reunisse no quintal a cadeira, o mestre e o saxofone. Vemos a imagem que existia antes que a foto existisse, e essa imagem é, em qualquer foto de Walter Firmo, sempre e antes de qualquer coisa, um retrato de Walter Firmo, da sua ternura e da sua rara sensibilidade”, diz a jornalista, escritora e fotógrafa Cora Rónai, na coleção Álbum de Retratos – Walter Firmo (2007).

 

Escalado pelo diretor de redação da sucursal do Rio de Janeiro da revista IstoÉ, Aloísio Maranhão, para acompanhar o repórter José Castello na reportagem posteriormente intitulada Quando explode a vida, publicada em 31 de julho de 1985, Firmo se utilizou de um expediente semelhante ao comentado por Rónai, nos registros que fez de Bispo. E assim produziu um ensaio síntese da sua criatividade espontânea, sensibilidade artística e capacidade emocional de adaptar-se as situações adversas (adquirida com os anos dedicados ao fotojornalismo). Some-se a isso, o domínio do ofício propriamente dito; do equipamento, tanto das suas funcionalidades como das brechas para a sua subversão. Foram três tardes quentes e intensamente dedicadas a deixar-se fluir com Bispo, sob as bençãos divinas do médico negro Juliano Moreira.

 

 

 

BISPO

Quando “recebeu” José Castello e Walter Firmo nos pavilhões da instituição manicomial, Arthur Bispo do Rosário tinha por volta de 74 anos de idade. Àquela altura, o interno, que em 1938 havia sido diagnosticado como portador de esquizofrenia paranoide, já somava mais de 20 anos da sua extensa produção de objetos. Três anos antes, em 1982, seus estandartes haviam sido exibidos na mostra coletiva À margem da vida, no MAM do Rio, organizada por Frederico Morais, com a ajuda de Denizart e da artista plástica Maria Amélia Lopes Mattei. Foi a primeira vez que seus objetos foram vistos fora da Colônia.

 

Mesmo tendo sido precedida do curta-metragem Prisioneiro da Passagem (1982), do fotógrafo e psicanalista Hugo Denizart, e de uma matéria produzida pelo jornalista Samuel Wainer Filho sobre a Colônia Juliano Moreira para o programa Fantástico, da TV Globo, em 1980, no qual Bispo do Rosário e seus trabalhos aparecem, a reportagem Quando explode a vida ficou marcada como a primeira grande aparição de Bispo do Rosário ao grande público.

 

 

 

 

“Fui um dos poucos fotógrafos que tiveram a graça de conviver com esse senhor adorável, engenhoso solitário, que na falta do que fazer engendrava sobre o apogeu de sua neurastenia uma arte fantástica em meio a brasões, lanças, sapatos empilhados, mantos sagrados salpicados na loucura, iluminado no resplendor de uma cama ‘voadora’ adornada de um mosquiteiro rosa com penduricalhos coloridos, estelares manchas a sinalizarem sua alegria. Vivi com o Bispo durante três preciosos dias fotografando para a revista IstoÉ, na sucursal do Rio, em companhia do então repórter José Castello, hoje nacionalmente conhecido como um ilustre escritor. Foram momentos de grande excitação quando ele punha sua mão sobre minha cabeça e dizia: ‘Você tem uma aura marrom’. Ou quando me olhava com aqueles olhinhos infantis da canção, mas, que continham singela doce inocência. Um grande aprendizado e lição de vida, faculdade de entender que aquele homem vivia sua plenitude”, recorda-se Walter Firmo.

 

Munido de uma câmera analógica Nikon, modelo F2, com um par de lentes de 50 e 28mm (grande angular), filmes Ektachromes 64 de ISO, e um “flashzinho”, Walter Firmo realizou nas três tardes de sol e céu azul um conjunto de fotografias de sútil beleza. A maneira como provocou/conduziu o fotografado a interagir com suas obras, com a atmosfera árida e fria da colônia, e o modo como conduziu o diálogo entre o sol, as sombras e o universo paralelo de Bipo, o flash duro e seco que ilumina todo o ambiente onde o interno vivia junto com seus mantos, estandartes e outros objetos… enfim, artista que é, Walter construiu em comunhão com Bispo um mundo novo, repleto de beleza, movimento e dignidade.

 

Em entrevista, o fotógrafo relembra os dias vividos na Colônia Juliano Moreira ao lado de Bispo.

 

 

 

 

O MENELICK 2º ATO – Quais são as suas lembranças daquelas três tardes em que passou com Arthur Bispo do Rosário, na Colônia Juliano Moreira, em 1985?
WALTER FIRMO: Foi um encontro casual, eu estava trabalhando como repórter-fotográfico da revista IstoÉ, na sucursal do Rio de Janeiro, quando de uma forma inadvertida, o diretor de redação, Aloísio Maranhão, me chamou dizendo que tinha uma missão para mim, e disse: “você que é meio louquinho, vou te botar em uma boa companhia, um tal Arthur Bispo do Rosário, que mora na Colônia Juliano Moreira e que tem um trabalho, dizem, fantástico com relação a essa coisa estrutural que se chama arte”. E lá fui eu. Foi quando tive a chance de conhecê-lo.

 

Em 1967, após ser preso em uma solitária no Núcleo Ulisses Vianna, na Colônia Juliano Moreira, Bispo ouve uma voz, que lhe ordena sua missão: representar “os materiais existentes na Terra para o uso do homem”. Com o aumento de sua produção, expande seu espaço para as dez solitárias do pavilhão. Mantinha com ele a chave do local e só permitia a entrada a aqueles que respondessem a pergunta: “qual a cor de minha aura?”

 

OM2ATO – Há uma particularidade na sua produção de retratos de pessoas negras, todos os seus retratados estão invariavelmente em posição de dignidade, altivas… como os icônicos registros do Cartola, Pixinguinha…
WF: Isso sempre foi uma linha de conduta minha com relação ao olhar sobre este povo, já que eu também sou negro, embora tenha pouca tinta. Mas sou filho de José e Maria, minha mãe tinha a pele clara, e meu pai era negro, e eu fui fruto dessa união.

Eu percebi quando eu comecei a fotografar, com meus 15 anos, que essa substância da negritude brasileira não existia, ninguém dava bola para essa sociedade. E eu achava que era uma coisa submersa. E quando o negro aparecia era na pele do bandido subindo no camburão, como jogador de futebol, ou no palco sendo como um Grande Otelo. Fora isso o negro não aparecia com dignidade na questão da família, do trabalho, nas outras identidades culturais que ele cultua como a sua musicalidade, a sua dança, enfim. Então eu disse para mim mesmo que iria seguir essa saga, fazendo fotografia desse povo sempre feliz, sempre ordeiro e sempre trabalhador.

 

OM2ATO – Você acha que houve uma sintonia, ou uma empatia, pelo fato do Arthur Bispo e você serem negros? Lembro-me de você dizer que o Bispo havia dito que a sua aura era marrom.
WF: Não necessariamente. Até porque o Bispo falou para o repórter que estava comigo na ocasião, José Castelo, que a aura dele tinha uma outra cor que eu não me lembro exatamente qual era. E a minha ele disse que era marrom. Mas eu nunca levei em consideração isso, uma vez que a dosagem de loucura dele era maior que a minha. Mas eu acredito, ele falou está certo. Nunca ninguém fez um estudo sobre isso, não é mesmo?

 

 

 

 

OM2ATO – Como foi a imersão naquele universo de Arthur Bispo do Rosário?
WF: Eu fui como pau mandado, operário, trabalhador, e chegando lá eu desempenhei o meu papel. Observei o entorno, vi a figura, observei as coisas que ele fazia e fui compondo na minha cabeça uma maneira de passar isso para o papel fotográfico. Mas que ele se mantivesse além de vivo, digno dentro da sua loucura.

Ele é um homem digno, poderosamente envolvente, embora seja um homem de estatura pequena, mas ele é magico. Ele trabalha com essa magia que é a loucura. Mas o que é a loucura? Ninguém sabe.

 

 

 

 

OM2ATO – Qual a sua relação com as tecnologias que avançam quase que ininterruptamente sob máquinas fotográficas digitais, celulares…?
WF: Eu tenho três máquinas digitais, uma Roliflex, tenho um aparato grande… e por último agora o telefone celular, que para mim é como um caderno de anotação. A onde eu vou e vejo alguma coisa que me interessa, eu faço o registro, sem me indispor com os novos ditames, as novas regras. A gente não tem que ter medo da tecnologia, ela vem para nos auxiliar, e eu estou vivo ainda, com 82 anos e quero sublinhar isso. Sempre me perguntam isso, especialmente os alunos: “como foi você sair de um tipo de fotografia a moda antiga, para uma nova tecnologia?”. Eu digo que são dois cavalos, inconscientes, que vão ser comandados por você, pelo seu coração e a sua mente. É você que vai conduzí-los. O que faz você como artista não é o aparato que define, e sim a sua maneira de traçar aquilo, seja por meio de um clique, de uma prancheta, de um desenho ou de uma escultura.

 

OM2ATO – Qual o ensaio, ou registro inesquecível?
WF: Os filhos, quando a gente tem uma família com muitos filhos, a gente gosta de todos eles, e eles são todos diferentes. Quando me perguntam qual foi a minha melhor fotografia, costumo dizer que será a próxima.

 

OM2ATO – Participou de publicações da imprensa negra?
WF: Nunca quis me engajar simbolicamente no movimento negro, porque a minha fotografia… quem vê a minhá fotografia percebe que eu estou engajado em um posicionamento político.

 

OM2ATO – Planos profissionais para 2020?
WF:
Bom, além dessa exposição em cartaz no Museu Afro Brasil, o IMS (Instituo Moreira Salles) comprou o meu acervo, e eu estou identificando semanalmente essas fotos, lá no Rio de Janeiro. E no contrato que temos está prevista uma exposição de fotografia daqui mais ou menos um ano, e um livro também. Provavelmente isso ocorra em 2021. Negociei 200 mil fotos com eles.

 

 




“Contou-nos o paciente seus sonhos fantásticos. Tem feito viagens através dos Continentes em missão religiosa onde ele aparece como frade”. Assim o médico Durval Nicolaes, em 26 de dezembro de 1938, descreve os delírios místicos de Bispo, quando é diagnosticado como portador de esquizofrenia paranóide.


 

 

 

 

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Walter Firmo – Ensaio sobre Bispo do Rosário
Para as pessoas interessadas, até o próximo dia 15 de março de 2020,
o Museu Afro Brasil, em São Paulo, exibe a mostra
Walter Firmo – Ensaio sobre Bispo do Rosário,
com curadoria de Emanoel Araujo,
apresentando 23 fotografias
deste ensaio realizado
em 1985.

 

 

 

 

 

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Nabor Jr.

Nabor Jr. é fundador-diretor da Revista O Menelick 2° Ato. Jornalista com especialização em Jornalismo Cultural e História da Arte, também atua como fotógrafo com o pseudônimo MANDELACREW.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.