dezembro de 2017

ELAS CONJURAM: AMARA TABOR-SMITH EM UMA CASA CHEIA DE MULHERES NEGRAS

Luciane Ramos Silva

 

 

 

Fotos Robbie Sweeny

 

 

 

 

Ao longo da história, mulheres de distintas nacionalidades, etnias e perspectivas de mundo, estiveram à frente de ações resistentes aos múltiplos processos de opressão, atuando em aquilombamentos, rebeliões e revides cotidianos pouco referidos na história oficial. Comprometidas com transformações sociais e movidas pela capacidade de vislumbrar novos horizontes, elas teceram contra-narrativas aos modelos de compreensão da realidade enraizados na velha patriarquia –  estrutura de poder que tentamos fissurar cotidianamente.

 

Essas diferentes contestações se fundamentam em potências criadoras que, em muitos casos, engajam a ancestralidade feminina como mola propulsora para o fazer artístico e para a mobilização de corpos políticos capazes de desmantelar os dispositivos de controle e silenciamento.

 

Os ajuntamentos artísticos têm sido um campo propício de debate, muitos deles alicerçados na construção comunitária, no compartilhamento dos dilemas para a busca de soluções e na ritualização da cura.  House Full of Black Women (Casa cheia de mulheres negras), performance-ritual concebida por Amara Tabor-Smith em colaboração com um grupo amplo de mulheres artistas,  é uma dessas ações  que movem, provocam e apontam relevâncias.

 

Trata-se de uma proposta de site specific e performance ritual, onde cada apresentação conforma uma espécie de episódio, que  acontece em espaços públicos, trafegando por diversas locações como ruas, cafeterias e praças, envolvendo  a expectadora em uma interação orgânica entre artista, audiência, espaço urbano e questões sociais.  O cenário é a cidade de Oakland, na Califórnia, território conhecido por sua comunidade historicamente negra e não por caso, local de nascimento do Partido dos Panteras Negras. A cidade vem mudando drasticamente com os processos de gentrificação que provocam o deslocamento forçado de populações negras, latinas e asiáticas. Essa criação de zonas de exclusão é um dos motes urgentes que Casa cheia de mulheres negras aborda, além de outros temas cortantes que atravessam as vidas daquelas mulheres: como o tráfico sexual.

 

 

Os episódios da performance são motivados por uma pergunta central: Como as mulheres e meninas negras podem encontrar espaços de respiro e sentirem-se bem em uma casa de acolhimento?  No episódio intitulado Agora você me vê, o grupo realiza uma vigília-ambulante, perpassando ruas barulhentas, interrompendo o trânsito e despertando a curiosidade dos transeuntes, que observam aquelas mulheres vestidas de branco, com cabeças cobertas por camadas de algodão, renda e mistério. Como num cortejo elas passam por vitrines de lojas e restaurantes, dançam, conversam, riem e contornam vagarosamente uma viatura da polícia.

 

Explorando as possibilidades e desafios da estética do site specific, ora integrando ora atravessando o publico, o trabalho cativa a comunidade não só para a reflexão sobre a experiência das mulheres negras, mas, de uma maneira mais ampla sobre a desigualdade social, a cultura do estupro e o sistema de justiça criminal.

 

A obra se comunica com uma longa trajetória de engajamento que permeia os temas dos trabalhos de Tabor-Smith, criadora que acumula uma série de parcerias com artistas de grande relevância no campo da dança estadunidense, entre eles os coreógrafos Ed Mock e Ronald Brown, a respeitada Cia. Urban Bush Women, na qual  atuou como intérprete e diretora artística, além de diversas colaborações ao redor do mundo, fincando pés, inclusive, em terras brasileiras.

 

 

ELAS CHEGARAM PARA FIAR

 

Fundadora do Deep Waters Dance Theater (Águas profundas teatro de dança), a artista frequentemente enraíza seus trabalhos no ritual, no bem viver e na elaboração de uma dança que mira as culturas negras e subalternizadas em seus embates político-sociais, ao mesmo tempo que se preocupa com uma arte capaz de acolher, curar e desconstruir as desumanizações históricas que desafiam a contemporaneidade. Entre seus trabalhos citamos Our Daily Bread (2011), que aborda as tradições alimentares e os sistema econômicos de exploração; He Moved Swiftly But Gently Down the Not Too Crowded Street (2014), dedicada à memória do artista afro americano Ed Mock, falecido nos anos 80; EarthBodyHOME (2015), peça multimídia de dança inspirada na trajetória e legado da artista cubana Ana Mendieta, abordando o tema do exílio, da opressão patriarcal e da reconexão com as forças da natureza.

 

Cientes de que nas obras de Amara Tabor-Smith a excelência artística está constantemente atravessada pela consciência crítica, perguntamos a ela qual seria o papel das mulheres nos processos históricos e contemporâneos de luta por liberdade:

 

Amara Tabor-Smith: Primeiramente, digo que as mulheres negras estiveram na linha de frente ou sustentaram as lutas por dignidade e liberdade em todos os lugares que estiveram e estão no mundo, seja historicamente ou em tempos contemporâneos.

 

Se olhamos a história dos Estados Unidos há incontáveis mulheres que posso nomear e que foram líderes em lutas por liberdade – Harriet Tubman, Sojourner Truth, Ida B. Wells, Ella Baker, Fannie Lou Hamer, Ângela Davis para nomear apenas algumas delas. E estas são apenas algumas das mulheres que ficaram conhecidas como líderes. Há muitas outras que foram esquecidas e que sustentaram movimentos formando a base ou a ligadura que deu estabilidade à eles. Durante o aniversário de celebração de 50 anos do movimento Black Panthers aqui em Oakland, onde vivo, houve vários seminários e palestras onde antigas membras mulheres discutiram as funções que desempenhavam no partido e como frequentemente elas eram as pessoas que mantinham as estruturas intactas enquanto os homens eram mais publicamente visíveis como líderes. Trata-se de um exemplo de como a dominação masculina foi uma questão nesse período dos movimentos por direitos civis. Esta era a realidade e norma daqueles tempos.

 

A “arte de conjura afro futurista de Amara Tabor-Smith, maneira como a artista conceitua seu trabalho, aponta presentes e futuros possíveis em criações que desafiam as construções hegemônicas de raça e feminilidade em provocadoras peças protagonizadas por mulheres, mas que incorporam reivindicações diversas e que são urgentes para a transformação da des(ordem) das coisas.

 

 

 

Em um contexto no qual o corpo das mulheres negras é constantemente violentado pelo consumismo capitalista em suas formas mais brutais ou dissimuladas, a autonomia e solidariedade são armas poderosas.  Assim, questionamos: Como podemos refletir sobre o significado de casa para além das lógicas capitalistas brancas patriarcais?

 

Amara Tabor-Smith: Como povos negros da diáspora, nós já criamos esse espaço. No Brasil, o terreiro de candomblé é um exemplo perfeito. É um espaço onde a espiritualidade, a liderança feminina e o suporte coletivo já existem. Isto vai no caminho inverso da supremacia branca. A questão não é como pensamos a ideia de casa fora do esquema branco patriarcal supremacista, mas como descolonizamos nosso pensamento, lembrando dos caminhos que nós já forjamos e valorizamos acima do capitalismo. Muitos de nós nos tornamos tão colonizados em nosso pensamento e tão conectados aos desejos capitalistas, que nem mesmo percebemos que esses espaços estão ao nosso redor. E é importante que reconheçamos esses espaços como espaços alternativos de negritude e que estão sob ataque da supremacia branca, particularmente em uma de suas formas que é a igreja evangélica. Então é importante que comecemos a valorizar a existência desses espaços ao nosso redor. Não é preciso acreditar no candomblé ou praticar esse tipo de espiritualidade para reconhecer sua relevância.

 

Avançando rapidamente para o presente – Black Lives Matters é um exemplo de movimento fundado por mulheres negras e que abrange pessoas negras queer e de gêneros não binários, assim como incorpora a espiritualidade e o auto cuidado como importantes princípios do movimento. Este é um importante exemplo da maneira como os atuais movimentos de liberação estão se transformando.

 

 

 

House Full of Black Women desvela a maneira como os discursos são produzidos por meio da ação social e tornam-se respostas potentes       às antinomias e perversidades multiplicadas pelo Estado e reproduzidas pelos indivíduos.

 

Numa tarde ensolarada de 2015, em terras estadunidenses, Amara apresentou-me diversos artistas e ativistas dessa Oakland negra e reveladora, durante o evento de comemoração do 49º aniversário do movimento dos Panteras Negras.  Mestra que é, afirmava que era necessário abraçar a escuridão. Hoje entendo essa premissa não apenas como um enlace criativo do mistério, mas como uma contra narrativa à oposição binária natureza/racionalidade, que nasce com a ciência moderna eurocêntrica. Também percebo nessa expressão uma fresta para construir vidas através de propostas que devem ser o avesso do projeto de mundo que se construiu (ou destruiu) até nossos dias, recriando sensos, significados e razões para nossos movimentos.

 

 

 

 

 

 

PARA SABER +

* Site Specific é um tipo de arte criada com um planejamento singular para um local ou meio ambiente desenvolvendo relações com esses espaços. Em sua origem, esteve ligado à critica à espaços de arte restritivos como museus e galerias. Tornou-se uma expressão construída em estreita relação  com os espaços, estando sujeita às suas dinâmicas sociais.

Para saber mais: deepwatersdance.com

Luciane Ramos Silva

Luciane Ramos Silva é antropóloga, bailarina, mobilizadora cultural e membro do Conselho Editorial da Revista O Menelick 2º Ato. Doutoranda em Artes da Cena e mestre em antropologia pela UNICAMP. Bacharel em Ciências Sociais pela USP. Atua nas áreas de artes da cena, estudos africanos e educação.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.