abril de 2011

O VALENTIM DA PRAÇA PÚBLICA: ARTE, AFRO-BRASILIDADE E ESPAÇO COLETIVO

Alexandre Araujo Bispo

 

 

 

fotos MANDELACREW

 

 

 

 

 

 

 

Miscigenada e multicultural São Paulo expira e inspira diversidade por suas vielas, ruas, becos e avenidas. Urbe brasileira com o maior número absoluto de negros (3,1 milhões) – a cidade é, por isso, mas também por sua intrínseca vocação cultural palco de incontáveis manifestações artísticas de matriz africana.

 

O asfalto é o tablado. Muros e viadutos transformam-se em paredes para essa produção presente em monumentos, festas, passeatas, feiras e onde mais a densa arquitetura paulistana permita a liberdade da expressão afro.

 

O busto de Luiz Gama, no Largo do Arouche; a estátua da Mãe Preta, no Largo do Paissandu; a Rua Teodoro Sampaio; o bloco afro Ilú Obá de Min; o Sarau do Binho e as performances da Cia. de Teatro Os Crespos são apenas alguns dos muitos exemplos que podemos enumerar.

 

É nesse universo de expressões afro-urbanas que, vinte anos após a morte do artista plástico Rubem Valentim (Salvador,1922 – Brasília, 1991), a revista O Menelick 2° Ato lembra e atualiza a importância histórica e a ousadia experimental de um dos mestres do construtivismo brasileiro.

 

 

 

Construtivismo encantado e riscadura brasileira

 

Rubem Valentim é um dos principais nomes da arte afro-brasileira contemporânea. Em sua obra figuram os anseios estéticos da mestiçagem de parte expressiva da população do país.

 

De família pobre e sangue mulato, sua relação com a arte veio, conforme a fala do próprio artista, pela descoberta da cor num pedaço de vidro, quando tinha cerca de cinco anos. “Não sei que fim levou meu caco de vidro azul, mas o tenho até hoje no meu coração”, escreveu ele, em 1967.

 

Formado em Odontologia e Jornalismo, Valentim iniciou-se na pintura como autodidata nos anos 40. Aos 9 anos de idade já fazia os próprios presépios com papelão e tinta. Sobre a experiência infantil relatou certa vez: “Mundo poético, popular, de cor e riqueza imaginativa, que ficou em mim e influenciou profundamente a minha arte”. Em 1954, Valentim realiza sua primeira exposição individual, posteriormente participa de várias bienais e exposições por todo o país. Talentoso, ganha muitos prêmios ao longo da vida, especialmente a partir de 1955. Em 1957 o artista muda-se para o Rio de Janeiro, mais tarde, em 1962, durante o Salão Nacional de Arte Moderna, ganha o prêmio viagem ao estrangeiro. No ano seguinte, em Roma, na Itália, desfrutando da conquista fluminense, participa da XXXI Bienal de Veneza. Ainda na Europa estuda arte negra e vai à África. Em 1966, participa do I Festival de Arte Negra de Dacar.

 

A figuração geométrica que marcará sua obra surge entre os anos 55 e 56, quando o artista inspira-se na cultura popular afro-brasileira, sobretudo o Candomblé, transformando em “linguagem visual o mundo encantado, mágico” que fluía dentro de si. Sua geometria é encantada, elevada e espiritual. Pela ordenação geométrica ele busca o misticismo, a alma brasileira, o que nos constitui como povo.

 

 

Emblema de São Paulo: símbolo da cultura mulata

Emblema de São Paulo
Concreto armado
8,20 x 2,60 x 0,60 m
1978

 

 

Em 1985, Rubem Valentim realiza uma escultura na Praça da Sé, em São Paulo. Com 8,5m de altura e feita em concreto aparente. A escultura monocromática que aponta para o céu divide espaço com obras de outros artistas, com a Catedral da Sé e o Palácio da Justiça.

 

No misticismo do candomblé, Xangô é o orixá da justiça que possui um machado com lâminas duplas. Este machado e outros símbolos dos orixás são recorrentes em suas obras. A escultura é como um totem, ponto de referência, obra para todos que por ali passam. Ao valorizar a matriz africana presente no candomblé e traduzi-la numa composição escultórica pública, Valentim nos convida a perguntar sobre nossas origens como povo. A arte foi sua forma de resposta e o que fez foi lutar com “todas as forças para ser mais humano e mais tolerante nesta época de insólita violência”.

 

A obra de Valentim é muito vasta, e há poucos trabalhos seus ao ar livre, o que torna esta escultura uma preciosidade que deve ser preservada pela população afro-descente como parte do patrimônio cultural da diversidade artística paulistana. Lembrar de Valentim é evocar sua ética, poética e política expressiva. Sua interpretação original das raízes africanas e indígenas do Brasil lhe permitiu fazer uma arte rica de simbolismo, e que tornou a geometria algo mágico. Ele entendeu a idéia de nação não como controle territorial, econômico e político, mas como uma unidade integrada de respeito e humanização das diferenças ressaltando a especial contribuição de negros e índios para construir o país que temos. É na escultura da Praça da Sé que esse ideal é conquistado. Ideal que é a síntese da própria cidade: mestiça, cosmopolita e multicultural.

 

 

 

 

 

 

Alexandre Araujo Bispo

ALEXANDRE ARAÚJO BISPO é doutor e mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Vive e trabalha em São Paulo. Atua com curadoria, crítica de arte, arte educação e produção cultural. Foi curador artístico, entre outras, das exposições: Aline Motta: Em três tempos: memória, viagem e água (2019); Medo, fascínio e repressão na Missão de Pesquisas Folclóricas, 1938-2015 (2015-2016); Negro Imaginário (2008). Curador educativo entre outras, das exposições: Todo poder ao povo: Emory Douglas e os Panteras Negras (2017) e Bienal Naïfs do Brasil (2018). Possui textos em publicações como Contemporary And América Latina; Revista Omenelick 2º Ato; Art Bazaar; Revista ZUM; SP-Arte; Pivô; Co-autor de Cidades sul americanas como arenas culturais (2019); Metrópole: experiência paulistana (2017) e Vida e Grafias: narrativas antropológicas entre biografia e etnografia (2015).

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.