julho de 2014

RACISMO NO BRASIL E AFETOS CORRELATOS

Mariana Santos de Assis

 

 

 

ilustrações Renata Felinto

 

 

 

 

 

Ao nos debruçarmos sobre a obra da prosadora Cidinha da Silva, compreendemos melhor o desespero de nossa crítica literária diante da literatura produzida nas periferias e guetos negros do Brasil. Em seu Racismo no Brasil e Afetos Correlatos temos uma demonstração de sua maestria diante das possibilidades da prosa. A autora transita com facilidade entre diferentes gêneros da prosa literária e jornalística, com a liberdade de quem conhece os limites dos gêneros de que lança mão, porém os ultrapassa e submete à sua própria vontade e impulsos artísticos. Cidinha nos surpreende a cada texto com diferentes formas de informar e emocionar, mostrando-se ora a cronista/historiadora que imortaliza momentos do nosso cotidiano por meio de um registro sensível alçando-os à categoria de fato histórico e texto literário a um só tempo. Ora revela-se uma verdadeira jornalista, ao assumir o compromisso de informar e denunciar.

 

Seus textos materializam e elevam a definição bakhtiniana de gêneros discursivos a níveis perturbadores. Se, segundo o autor, “cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados”, na obra de Cidinha vemos uma articulação natural e impressionante dos enunciados do povo preto e pobre do Brasil com o que há de mais elaborado no cânone literário. Nas periferias das cidades brasileiras estamos vendo fracassar as tentativas de encarceramento do talento e da liberdade artística, impostas por uma intelectualidade tacanha e amedrontada diante da iminente perda do controle da produção cultural brasileira.

 

Conhecer diferentes gêneros e ser uma leitora voraz são fatores fundamentais para ser uma boa escritora, Cidinha é dessas. Em sua obra fica evidente sua ampla e diversificada formação cultural, não apenas pelas referências constantes a artistas e intelectuais, majoritariamente negros, mas também pela qualidade de sua prosa, escrita cuidadosa, metáforas bem elaboradas, emoções e sentimentos que levam direto à nossa alma as ideias de admiração, revolta, enlevo, doçura, reconhecimento que a prosadora quer nos proporcionar.

 

A crônica é, indiscutivelmente, o gênero predominante no livro, porém não é a quantidade de crônicas presentes na obra que nos permite afirmar isso, é a presença constante da característica mais marcante desse gênero que o torna fundamental para entender o conjunto da obra cidiniana: o tempo. Em suas crônicas, Cidinha, como os cronistas da Antiguidade, apresenta um recorte histórico de grandes nomes e momentos da comunidade negra contemporânea e relata fatos do nosso cotidiano a partir de sua perspectiva mordaz e intensa, ou seja, mostra dominar o gênero e suas características clássicas e contemporâneas.

 

Porém, a crônica por si só já é um gênero que apresenta complicações para os padrões estanques e limitados da crítica literária. Além disso, sua autora, embora demonstre grande respeito, domínio e cuidado com a língua e a literatura, não se submete aos padrões e normas da academia ou de uma elite intelectual que despreza as manifestações culturais que também perpassaram sua formação acadêmica e artística. Consequentemente, os textos produzidos serão ainda mais complexos e excitantes, ao menos para aqueles que não temem o prazer que a literatura pode, e deve, proporcionar.

 

O leitor covarde e já devidamente agrilhoado pela cátedra poderá, enfadado com a impossibilidade de categorizar os textos e certificar-se das informações apresentadas, desistir da leitura. Falo daquele leitor que ainda não possui autonomia para apreciar o texto pelo texto, daquele leitor que precisa do aval de especialistas, selos de grandes editoras ou assinaturas de peso para apreciar uma leitura ou daquele que precisa ouvir o grito dos excluídos e a voz da militante em cada linha. Convido-os, entretanto, a tentar ler com o único objetivo de sentir prazer, de deleitar-se com o trânsito constante entre a fabulação e uma realidade cercada do encantamento que só a escrita literária é capaz de proporcionar.

 

Textos como Usos e Abusos da Toga de Joaquim Barbosa; A Lapa de Seu Jorge; Marina Silva, uma Fundamentalista!; Ao Amigo Ronaldo Fraga; Mano Brown: Mil Faces de um Homem Leal nos informam e imortalizam momentos específicos, com detalhes sobre cada temática abordada e aquele toque de lirismo que só um bom cronista é capaz de criar. Nesses textos vemos a preocupação com a história e a informação falarem mais alto; nomes, sobrenomes e fontes marcam a trilha para que essas importantes figuras negras, suas conquistas ou deslizes sejam lembrados para sempre por meio de sua pena. Porém vemos a cronista se afastar da jornalista, ao percebermos que não se trata apenas de registrar um momento, trata-se de nos fazer ver e reviver pelos olhos da autora, sentir a intensidade dos fatos por meio de uma linguagem fortemente subjetiva e imagética.

 

Tais características ficam evidentes e perturbadoras nos textos que homenageiam e exaltam figuras negras, sobretudo os textos dedicados à cantora e compositora brasiliense Ellen Oléria. Do ponto de vista da análise de gênero, podemos dizer que, nesses textos, começamos a entrar em águas desconhecidas, pois o tom poético de Que o Amor Pra Sempre Viva, Minha Dádiva! e a estrutura quase epistolar de Ellen Oléria e Jean Wylls, por exemplo, confundem com a estrutura clássica da crônica, dentre outras coisas porque o estilo jornalístico é posto em último plano. Além disso, a preocupação com a informação ou o ativismo de representar e enaltecer essas importantes figuras e momentos históricos, ficam completamente embotados pela emoção da autora que dirige-se aos seus com o carinho e a admiração de quem saúda sua ancestralidade nos jovens que aprende a respeitar mais a cada dia.

 

Definir a cantora atlântica como negra, lésbica, feminista, candanga da Ceilândia… é tomar parte do todo-Ellen, que é poeta, atriz, compositora, filha amorosamente cúmplice da mãe, irmã e amiga querida, amante da amada. É também fundadora da Confraria das Pretas Poderosas. O caminho de Ellen é exuzilhado e ela brisa, desenvolta (p. 94)

 

 

Ao falar de Ellen, ao exaltar a artista e o ser humano sensível, a autora parece falar de si mesma e de tantos outros artistas negros e pobres, que são rotulados, lidos e apreciados unicamente a partir de suas contribuições político-sociais por meio de sua arte e nunca por sua arte em si. O artista negro só recebe o reconhecimento e a apreciação que os representantes do cânone recebem, quando apresentam longo histórico de militância e o discurso restrito aos conteúdos temáticos de interesse político e social.

 

Em Quilombolas! For Ever!; Quanto mais mundo na vida da gente, melhor!; Ardis da Imagem; O Brilho de Dira Paes em Salve Jorge a informação ou a realidade dos fatos narrados, bem como os limites do gênero, em alguns momentos, se perdem por completo e em outros oscilam de maneira inovadora, num trânsito constante pelos enunciados da poesia, da crônica e dos gêneros argumentativos.

 

Mas é nos textos chamados “opinativos” que a autora é mais autêntica. Primeiramente pelo respeito que demonstra pelas telenovelas, essa importante produção cultural tão apreciada pelo público negro e pobre – com quem a autora pretende dialogar e a quem gostaria de representar – e tão criticada pelos mesmos catedráticos e ativistas, incapazes de enxergar valor em produções que estejam fora da academia ou do discurso político. Cidinha ressalta a delicadeza e a intensidade com que questões polêmicas como as relações raciais, de gênero e classe são tratadas em nossa teledramaturgia, como vemos nos textos sobre Lado a Lado e Subúrbia, por exemplo. Mas não deixa de apontar o discurso tendencioso e os ataques à cultura, linguagem e estética negras e pobres, disfarçados pelo discurso da democracia racial ou do paternalismo da elite branca, como quando fala sobre Salve Jorge.

 

Novamente vemos uma profusão de estilos, temas e formas composicionais se (con)fundindo para a criação de uma nova e deliciosa proposta de crítica televisiva. Longe da arrogância dos críticos ou da frieza dos resenhistas, Cidinha nos oferece leituras emocionantes e emocionadas que alçaram a telenovela à condição de produção artístico-cultural, destacando a sutileza dos interdiscursos presentes na caracterização de personagens, cenários e enredos por meio da releitura dos episódios a partir da linguagem literária e do olhar sensível da prosadora.

 

Racismo no Brasil e Afetos Correlatos é um convite à liberdade de leitura e escrita literárias, mas para aceitá-lo é imergir no universo único criado pelo hibridismo cultural de Cidinha da Silva e é esse hibridismo cultural que tornará nossa experiência de leitura algo prazeroso e caracterizará a principal contribuição de sua obra para uma mudança efetiva e definitiva nos estudos literários hoje. Ao nos confrontarmos com a impossibilidade de categorizar um texto em um determinado gênero, tendemos a atribuir isso à inabilidade do autor diante do gênero que se propôs a desenvolver. Como consequência desse tipo de postura, vemos em nossa produção literária contemporânea uma sucessão de repetições e revozeamentos dos mesmos modelos canonizados.

 

Nos textos de Cidinha, a linguagem impecável, figuras e imagens elaboradas, o vasto repertório cultural e sua extensa produção não nos permite classificá-la como uma autora menos hábil e somos obrigados a rever os critérios que utilizamos para avaliar e definir o que consideramos valor literário ou literariedade e em última instância rever o próprio conceito de cânone.

 

 

 

 

 

 

 

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NOTA DE RODAPÉ
Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895 – 1975) foi um filósofo e pensador russo.

Mariana Santos de Assis

MARIANA SANTOS DE ASSIS é licenciada em Letras, Bacharel em Estudos Literários e Mestre em Linguística Aplicada (UNICAMP).

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.