julho de 2020

GOSTO DE AMORA: MASCULINIDADES NEGRAS EM DESDOBRAMENTOS DE VIDA E MORTE

Mariana Santos de Assis

 

 

 

 

 

 

 

ilustrações joão pinheiro

 

 

 

 

 

 

Antes de mais nada, diria que o livro de contos Gosto de Amora, de Mário Medeiros, é uma ode ao homem negro, uma provocação a todas as ideias correntes sobre masculinidade e até mesmo, em alguma medida, um resgate desse conceito tão importante e, ao mesmo tempo, tão manipulado e controverso. Pensar a masculinidade tem sido uma grande preocupação para qualquer pessoa disposta a lutar por mudanças sociais efetivas. A defesa de aspectos extremamente negativos do que, historicamente, significa ser homem no mundo ocidental tem sido a causa para alguns dos principais problemas sociais, desde a manutenção das grandes desigualdades raciais e de gênero até os assassinatos em massa de negros, mulheres e LGBT’s e, quando o assunto é analisado na perspectiva do homem negro, torna-se ainda mais complexo, dadas as terríveis intersecções do racismo. Nesse contexto, a literatura negra tem assumido o importante papel de ressignificar o lugar e as responsabilidades do homem negro nessa sociedade e o livro de Mário Medeiros vem engrossar esse caldo social, artístico e cultural tão importante.

 

Antes de começarmos a leitura dos textos propriamente, já temos uma dica da proposta geral do livro a partir de sua organização. Os contos são divididos em duas partes: Histórias de Meninos e Homem em Janeiro. Tal divisão nos dá a impressão de que serão histórias sobre a vida, a formação social, cidadã e subjetiva dos indivíduos retratados e essa impressão é confirmada ao longo da leitura ao nos depararmos com diferentes perspectivas sobre o preconceito, a dor, a família, a saudade, o amor, a morte…

 

“(…) a literatura negra tem assumido o importante papel de ressignificar o lugar e as responsabilidades do homem negro nessa sociedade (…)”.

 

Trata-se de um livro sobre a vida, porém o fato de serem histórias protagonizadas e narradas por homens negros não pode ficar de fora de nossa apreciação, uma vez que esses sujeitos ocuparam esse lugar na literatura brasileira pouquíssimas vezes. Enfim, podemos dizer que é uma obra sobre a formação do homem negro na sociedade contemporânea, perpassado por todas as dores e delícias de ganhar e perder, viver e morrer.

 

Histórias de Meninos começa com o conto Fábrica de balas, outra provocação que nos leva a pensar em uma narrativa infantil, aos moldes ocidentais do que entendemos como infância. Tal expectativa é reforçada pela referência à bala, elemento querido por toda e qualquer criança. Mas Rubi não era esse tipo de criança, era um jovem trabalhador, sem perspectivas, somente a revolta sufocada diante da aparente inevitabilidade de sua existência vazia. Uma existência marcada pela presença, não da bala, mas da fábrica de balas, da exploração do trabalho desde a mais tenra idade, por aquele cheiro não doce, mas enjoativo, nauseante, misturado ao odor fétido do córrego para onde escorria o “esgoto” dos barracos. Desejos, sonhos, revolta, tudo começava e terminava na imensidão da fábrica, na mesquinhez do patrão e na fatalidade da pobreza. Da infância de Rubi, se houve alguma, só ficamos com os estereótipos e as lembranças dos racismos nossos de cada dia. E o homem que começava a se formar tinha como exemplo apenas seus companheiros, dia após dia sentados diante do local de seus calvários e, contraditória e tristemente, de sua salvação.

 

A segunda parte, Homem em Janeiro, começa com o conto Menino a caminho. Um menino negro, desacreditado pelo racismo, mas incentivado pela família, está a caminho de contrariar as estatísticas e realmente chegar lá, de ser o um em um milhão. O menino a caminho de ser o primeiro doutor negro, o “um” que, ao chegar lá, ao finalmente “ser alguém”, perceberá que voltou a ser só mais um e nunca será mais que apenas um, se em dez ou em milhões não faz diferença, ele chegará e o único caminho depois é voltar, catando as sobras da vida que ficou pelo caminho. Voltar para o colo de seu pai, não mais tão gigante, mas ainda grande em conhecimentos e acolhida. Chama a atenção aqui a representação da afetividade masculina, meio distante, talvez melancólica, mas sempre pronta a oferecer respostas nos silêncios carregados de sentido, embalado pela música negra, outra presença constante no livro.

 

Poderíamos dizer que chegar lá é sempre voltar, crescer é aprender a olhar para trás, ser menino e voltar a ver o pai gigante em sua sabedoria de quem tem um amor preto para recordar, de quem espera para um dia ir viver no campo verde com sua Beatrice, “sua preta, preta doce e azeda, como gosto de amora”. Essa referência ao título nos faz pensar em desejo e afeto, uma declaração à complexidade e beleza da mulher negra, preta, doce e azeda, como a amora saboreada na infância e desejada na maturidade.

 

“(…) Uma existência marcada pela presença, não da bala, mas da fábrica de balas, da exploração do trabalho desde a mais tenra idade, por aquele cheiro não doce, mas enjoativo, nauseante, misturado ao odor fétido do córrego para onde escorria o ‘esgoto’ dos barracos”.

No entanto, há mais a se pensar a respeito do título. Gosto de Amora nos direciona para outra característica marcante das belas trajetórias apresentadas na obra: a morte em diversas, profundas e poéticas interpretações. O conto homônimo traz uma leitura extremamente lírica da morte, ainda mais impactante por ser apresentada na perspectiva de uma criança, um menino negro que, em sua ingenuidade, nos proporciona uma bela perspectiva de uma das questões mais profundas e difíceis para a humanidade. As visitas com o pai, à “casa” de seus ancestrais que estão não enterrados, mas morando, “vivendo” e aguardando ali a mudança/chegada dos outros familiares, os mantêm vivos na memória do garoto. O menino parece desejar viver lá, naquele campo verde enfeitado pelas flores rosas e azuis, levadas como presente/oferenda da família que ficou e do amigo da floricultura, podendo comer as amoras que adoçaram sua infância e protegem seus entes queridos e amigos desconhecidos.

 

De fato, a morte aparece sob diferentes perspectivas e pensá-la dessas maneiras tão distintas, por homens e meninos negros faz ainda mais sentido quando pensamos na presença constante da morte violenta e prematura na vida dessa parcela da população. No entanto, ao contrário do que se pode esperar, não se trata de um livro sobre o genocídio ou que apresente apenas a violência a que a população negra é submetida e muitas vezes reproduz. Ao contrário, os contos nos dão a possibilidade de revisitarmos nossas convicções sobre a única verdade incontestável da vida, ao nos colocar diante da beleza e importância da memória e da ancestralidade, por exemplo. A centralidade e importância das figuras familiares que se foram, mas deixaram doces lembranças é um dos artifícios usados para garantir tal efeito.

 

A morte violenta aparece sempre marcada por questões mais profundas e podemos perceber uma leitura interessante do genocídio da juventude negra no conto Clássicos do gênero. Dona Santa, embora não seja descrita como negra, no contexto, nos faz pensar na angústia das mulheres negras, constantemente apreensivas quanto à segurança de seus filhos, sempre alvos, pois nunca brancos. O fato de não haver relação biológica entre ela e o pequeno e esforçado Sorriso Bonito bem como não sabermos se ela é ou não uma mulher negra amplia essa angústia a todas as mulheres. A proximidade entre o Palácio da Justiça e todos os aspectos de injustiça social mais brutais que uma grande cidade pode apresentar é outro aspecto enriquecedor da narrativa na qual desfilam afetos, temores e contradições típicas das grandes cidades.

 

 

 

 

 

 

Durante a leitura de todos os contos os sentimentos das personagens são apresentados de forma vívida e intensa, possibilitando ao leitor sentir a dor, a alegria, a frustração, o desejo, a inocência dos protagonistas de histórias absolutamente possíveis no dia a dia de crianças, jovens e adultos em qualquer lugar do mundo. Como esquecer o rostinho latino de Gabriel, no conto A estrada na mochila, gritando na janela da escola: “Tia, a minha mãe morreu!”, enquanto, lá embaixo, a mãe do amigo, narrador da história, segura com força seu filho e o aperta contra o peito, com suas “mãos gordas e boas”. A cena é ainda mais tocante diante da confusão do menino, que não entende nada da situação ou das gotas grossas que caíam sobre sua cabeça em um dia quente de céu aberto.

 

A estrada na mochila, toda a caminhada, o percurso para “chegar lá” na mochila, na escola. Escola que é protagonista também em A exposição do urso panda, mas nesse caso há outro aspecto importante a ser destacado: as consequências das “brincadeiras” aparentemente inocentes, banalizando o racismo e os muitos preconceitos que ainda divertem boa parte da sociedade. O final destaca a satisfação e a felicidade de duas crianças que finalmente conseguem se livrar da solidão e das torturas do racismo recreativo de forma trágica, porém definitiva. O texto destaca com extremo lirismo a cumplicidade dessas crianças, em seus últimos momentos, no grito de libertação e no ato final marcado pelo afeto enfim compartilhado.

 

A segunda parte do livro vai tratar de questões ainda mais delicadas e mergulhar mais fundo nas subjetividades do homem negro. Frustração, desejo, sonhos, amor são algumas das emoções evidenciadas nas histórias de Homem em Janeiro. Porém, algumas questões permanecem presentes, como a família, assumindo papéis cada vez mais relevantes seja nas memórias, seja pela presença na fase adulta.

 

 

 

 

 

Outro ponto importante desse momento do livro são os conflitos relacionados à posição social desses sujeitos, lutando para se impor, mas sofrendo as mais diversas consequências de sair do lugar historicamente designado a eles. Observamos uma complexificação da  caminhada do homem negro livre, sem lugar no mundo “civilizado”, buscando se enquadrar nos sonhos de uma sociedade que não foi feita para ele, deixando para trás amor, família, alegria, tudo em nome de ganhos tão mais abstratos que a concretude dos afagos dos gigantes familiares. A questão da exclusão social torna-se ainda menos central e os conflitos existenciais, o sofrimento psíquico, a humanidade desses sujeitos, enfim, assume o protagonismo das histórias. Aqui não há mais tantas dúvidas e incertezas diante das questões materiais, não há mais a ingenuidade das crianças, apenas as instabilidades do adulto em formação constante, lutando para não apenas existir, mas começar a viver.

 

Apesar disso, a violência e as mazelas sociais não são totalmente abandonadas, há a retomada desses temas principalmente nos contos Borracha e Figuração. No primeiro, a violência é patente, porém os acontecimentos são narrados com uma boa dose daquela comicidade, quase sádica, ideal para o público sempre ávido por violência que somos. Os altos e baixos da vida de Menezes Mendonça são representados com um humor meio sombrio, mas inevitável e desgraçadamente engraçado. Nosso sadismo acaba se revelando quando não conseguimos conter o riso diante dos desafios enfrentados por um homem negro desacreditado desde o berço.

 

A falta de perspectivas de Menezes Mendonça, sua ascensão e queda também podem ser identificadas no protagonista do conto Figuração, bem como as consequências, menos fatais, mas igualmente tragicômicas, de sua tentativa de sair do lugar de “nem ser um acontecido”. Ambos “acontecem”, porém pagam o preço por isso. De diferentes maneiras o sucesso temporário é cobrado por toda a vida dos personagens, seja na tragédia de Menezes Mendonça ou no descrédito de Jorge Negrão.

 

“Outro aspecto da estrutura do texto que chama a atenção são as narrativas descontínuas, recortadas por subtítulos, algo incomum em contos, e pausas marcadas por espaços e reticências entre os parágrafos. Tal estratégia parece tentar remontar a própria instabilidade da memória, das passagens e momentos da vida”.

O amor, o sexo e a música são outros temas constantes em toda a obra e ocupariam, cada um deles, um estudo específico, dada a multiplicidade de sentidos que evocam nas narrativas. Histórias de amor, cheias de desejo e afetos que, como toda a história, terminam deixando um rastro de reflexões e mágoas, mas também memórias que aquecem e consolam os dias solitários, à espera da próxima aventura entre lençóis, livros, transportes públicos ou em uma esquina qualquer…

 

A linguagem e as imagens utilizadas em todos os contos reforçam as características de seus narradores, ambientes, origens sociais etc. Há uma variedade de linguagens adequadas à diversidade de personalidades apresentadas, porém todas as histórias são marcadas por um lirismo ora delicado e sutil ora visceral e impactante. Outro aspecto da estrutura do texto que chama a atenção são as narrativas descontínuas, recortadas por subtítulos, algo incomum em contos, e pausas marcadas por espaços e reticências entre os parágrafos. Tal estratégia parece tentar remontar a própria instabilidade da memória, das passagens e momentos da vida.

 

Enfim, só podemos agradecer ao Mário Medeiros por esse trabalho que é não só uma obra de arte, mas também um presente para a literatura brasileira e, principalmente, para a literatura negra.

 

 

 

 

 

 

Gosto de Amora
Mário Medeiros
148 páginas
Editora Malê
2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mariana Santos de Assis

MARIANA SANTOS DE ASSIS é Licenciada em Letras, Mestra em Linguística Aplicada e Doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professora da Prefeitura de São Paulo, integra o Coletivo ILE ARA – Instituto Livre de Estudos Avançados em Religiões Afro-brasileiras. Atua nas áreas de Ensino de língua portuguesa; Letramentos; Multiletramentos; Literatura negra, marginal-periférica e negromarginal; Culturas não hegemônicas; Gênero e Raça.

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.