março de 2026
QUANDO A NAÇÃO SANGRA NA PALAVRA: TSITSI DANGAREMBGA E NOVIOLET BULAWAYO NO CORAÇÃO DA LITERATURA AFRICANA E AFRODIASPÓRICA
Victor Evangelista Santos
capa ZimbabweVigil
fotos Rudolf H. Boettcher / EuphoricOrca
Há literaturas que celebram a fundação da nação; outras insistem em perguntar quem ficou soterrado sob seus escombros. Tsitsi Dangarembga e NoViolet Bulawayo pertencem, decididamente, a este segundo grupo. Lidas à luz de pesquisas críticas, suas obras revelam que o Zimbábue independente não surge como promessa cumprida, mas como projeto inacabado, marcado por memórias feridas, autoritarismo político e pela persistente subalternização das mulheres negras[1].
Tsitsi Dangarembga, romancista, cineasta e dramaturga zimbabuana nascida em 1959, ocupa um lugar singular na literatura africana contemporânea por tensionar, de dentro, o imaginário da libertação. Na trilogia centrada em Tambudzai (protagonista) – composta por Nervous Conditions (1988), The Book of Not (2006) e This Mournable Body (2018) –, a autora desmonta a narrativa épica da independência ao revelar como o colonialismo sobrevive na forma de racismo internalizado, patriarcado e exclusão socioeconômica. A guerra de libertação (conhecida como Segunda Chimurenga, 1960-1979), longe de ser redentora, aparece como experiência ambígua: necessária, mas incapaz de produzir justiça estrutural. A força literária de Dangarembga reside nessa recusa ao consolo: sua escrita expõe a violência de um Estado que devora seus próprios filhos, sobretudo suas filhas, convertendo a memória em campo de batalha político e ético.

Tsitsi Dangarembga e NoViolet Bulawayo
Elizabeth Zandile Tshele, mais conhecida pelo pseudônimo NoViolet Bulawayo (nascida em 1981), representa a geração de romancistas zimbabuanas do pós-independência, deslocando o eixo narrativo para além das fronteiras nacionais. Em We Need New Names (2014), o Zimbábue é narrado a partir do corpo infantil e, depois, da diáspora. O exílio não aparece como libertação, mas como extensão da precariedade: o racismo global, a hierarquização entre “países-países”[2] e a nostalgia do “Paraíso” (a periferia onde a protagonista Darling vive) revelam que a violência colonial se reconfigura no espaço transnacional. Bulawayo amplia o alcance da literatura zimbabuana ao inseri-la no circuito afrodiaspórico, mostrando que a nação continua a operar como trauma mesmo quando geograficamente abandonada. Esse afastamento não é uma escolha casual, mas um processo de partida forçada, decorrente de uma estrutura política sob o domínio da ZANU-PF (Zimbabwe African National Union – Patriotic Front), que acirrou divisões étnicas. No contexto pós-independência, a hegemonia shona (grupo majoritário no partido e no Estado, sob Robert Mugabe) levou a episódios de violência sistemática contra o grupo ndebele, ao qual Bulawayo pertence.
Ao tratar de um mesmo lugar sob óticas, locais e temporalidades distintas – Dangarembga, de origem shona, viveu a transição colonial, enquanto Bulawayo, ndebele, escreve a partir do exílio pós-independência –, as autoras revelam, através de um olhar literário, as realidades complexas de uma nação que, para as mulheres zimbabuanas, permaneceu como horizonte de espera e inconcretude. O ponto de convergência mais potente entre ambas está na centralidade das mulheres negras como produtoras de memória. Dangarembga e Bulawayo escrevem contra o apagamento histórico das mulheres que lutaram (inclusive em grupos de resistência armada como a ZAPU e a ZANU-PF[1]), sofreram e foram descartadas no pós-independência. A literatura torna-se, assim, uma forma de “escrita-dor”: não apenas narrar a dor, mas inscrevê-la politicamente, recusando sua naturalização. Nesse sentido, suas obras dialogam com debates afrodiaspóricos mais amplos sobre racismo estrutural, colonialidade do poder e gênero, aproximando o Zimbábue de outras experiências negras globais, inclusive latino-americanas.
O grupo Vigil (formado por refugiados e ativistas zimbabuanos no Reino Unido), em frente à Embaixada do Zimbábue, em Londres, no último dia 21 de fevereiro. O Vigil reúne-se regularmente aos sábados, das 14h às 17h, para protestar contra as graves violações dos direitos humanos no Zimbábue. O grupo, que teve início em outubro de 2002, pretende continuar com as manifestações até que eleições livres, e com monitoramento internacional, sejam realizadas no Zimbábue.
Contudo, vale tensionar uma possível idealização dessa literatura como espaço de redenção. Se Dangarembga e Bulawayo desconstroem narrativas oficiais, suas obras também expõem limites: a escrita não cura o trauma, não reorganiza o Estado, nem substitui a ação política coletiva. Talvez sua importância maior esteja menos em oferecer respostas e mais em sustentar a ferida aberta, impedindo que o esquecimento se imponha como política nacional e permitindo que as gerações de mulheres zimbabuanas (e outras) compreendam sua própria história. Nesse ponto, a literatura deixa de ser apenas africana ou zimbabuana e afirma-se como gesto radicalmente afrodiaspórico, onde lembrar é resistir.
Ao fim, Dangarembga e Bulawayo não escrevem para salvar a nação, mas para interrogá-la. Sua relevância para o exercício literário africano e afrodiaspórico está em mostrar que a independência, sem justiça de gênero, racial e social, é apenas uma mudança de linguagem do poder. A pergunta que permanece – e que suas obras nos obrigam a enfrentar – não é apenas o que foi o Zimbábue, mas que tipo de futuro pode ser imaginado quando a memória insiste em não se calar.
- NOTAS
[1] A utilização das raízes conceituais de “mulheres” e “negras” se dá pelo posicionamento político e conceitual apresentados pelas próprias autoras, sobretudo por Tsitsi Dangarembga que em seu livro autobiográfico Preta e Mulher (oiginalmente, Black and Female) (2023) se autodeclara uma feminista negra. Assim como, parte das discussões propostas na literatura de NoViolet Bulawayo está intrinsecamente relacionada a discussões de gênero transnacionais, muito interligada ao feminismo negro estadunidense.
[2] Alusão a brincadeira realizada pelos personagens do livro de Bulawayo em que se figuram como países do mundo em que, os “países-países” são àqueles compreendidos como Nações de fato, países entendidos como desenvolvidos.
[3] Respectivamente, Zimbabwe African People’s Union (ZAPU) e Zimbabwe African National Union – Patriotic Front (ZANU-PF), são dois grupos de resistência que lutaram pela libertação do Zimbábue durante a Segunda Chimurenga. A ZAPU-PF era composta, em sua maioria, por Ndebele e no pós-independência, com a consolidação do poder nas mãos da ZANU-PF (de maioria Shona), a ZAPU-PF foi perdendo força política e representantes.

