julho de 2020

CONDE FAVELA SEXTETO – ABC GUETO JAZZ E CONTRACULTURA

Romulo Alexis

 

 

 

 

 

 

 

fotos rodrigo sommer /
eric saldanha delacoleta

 

 

 

 

 

ANTECEDENTES

 

Oriundos do ABC Paulista, berço fértil e frutífero de grandes artistas que ativam a cena musical do país, o Conde Favela Sexteto nos traz identidades que ilustram bem a ideia de operários da arte, signo este ligado às lutas históricas que a geografia da região carrega.  Banda majoritariamente afro, reivindica para si a raiz das práticas artísticas que vão do spiritual ao free jazz, passando pelo samba e pela música livre, elementos que são investidos como uma estética de resistência cultural. Música ritual praticada de forma coletiva, horizontal e como conexão espiritual.

 

“… a (r)existência de um grupo de jazz no contexto onde as engrenagens opressivas do capitalismo esmagam sonhos e onde o investimento em cultura é zero, é um ato apaixonado de bravura”.

O Conde vêm há 11 anos desenvolvendo arte em um cenário desfavorável, num país dominado pela Necropolítica e pelo genocídio negro. Dominado pelo que há de mais atrasado e conservador politicamente. Dominado por uma indústria cultural cujo pensamento mercadológico prolifera um conteúdo musical massificado e artisticamente controverso.  De fato, a (r)existência de um grupo de jazz no contexto onde as engrenagens opressivas do capitalismo esmagam sonhos, onde o investimento em cultura é zero, é nitidamente um ato apaixonado de bravura. Uma ação de CONTRACULTURA neste ABC Gueto Jazz.

 

Contradizendo todas as estatísticas e circunstâncias, Edson Ikê, homem negro de origem humilde e pivô do Conde Favela, teve seu primeiro contato com o jazz vasculhando um sebo em São Bernardo do Campo, onde encontrou um LP do icônico trompetista Louis Armstrong. Ali nascia uma paixão pelo trompete e uma relação entre as artes visuais e sonoras.

 

Artista visual e designer renomado internacionalmente, Ikê fez parte do histórico coletivo musical UAFRO, que em meados dos anos 2000 trazia Ba Kimbuta e Robson Dio como cantores MC’s, acompanhados de uma pequena orquestra majoritariamente afro, com uma musicalidade potente anunciando um Afrobeat que anos depois se tornaria hype, sem acolher as contribuições de nenhum destes artistas. Este fato diz muito (ou diz tudo) sobre a impermeabilidade da sociedade brasileira que opera na manutenção da invisibilidade dos seres sociais afros em função da visibilidade da branquitude.

 

 

 

UAFRO, em apresentação no Projeto Canja com Canja, em Santo André (SP), no ano de 2008.

 

 

 

Conde Favela nasce logo após a experiência de Ikê com o UAFRO e do seu desejo em estudar jazz, de se aprofundar na música instrumental através do trompete e desenvolver diálogos com o SambaJazz. Seguiram-se a sua participação no coletivo contribuições com os rappers Ba Kimbuta, Raphão Alaafin e com a cantora Denna (Hill) Souza, até que a ideia de não atuar mais como banda de apoio de MC’s se desenvolveu.

 

O naipe que sopra junto desde esses primórdios é composto, além de Edson Ikê (Trompete), por Harlem “Buruga” Nascimento, no Saxofone Tenor, e Mabu Reis, no Trombone. Harlem Nascimento é multi-instrumentista, flautista, percussionista e saxofonista tenor. Possui uma vasta pesquisa e vivência em música popular regional. Mabu Reis é exímio trombonista que desenvolveu-se nas rodas do Samba de Terreiro de Mauá. Carrega um gosto pelas raízes do samba, da seresta, do choro trombonístico de Raul de Barros, levando consigo o rico repertório de tradição afro-brasileira, além da influência da linguagem jazzística do trombonista Curtis Fuller. A banda se completa com Diego Estevam, guitarrista formado pela Escola Municipal de Música Maestro Della Rica, em Ribeirão Pires, e que também possui formação em licenciatura musical pela Faculdade Metropolitana de Santos. Rafael Cab é baterista, percussionista, arte educador e um dos grandes destaques da música livre e exploratória de São Paulo atuando junto a SPIO Orquestra e no Circuito de Improvisação Livre. Participa também do Coletivo Roketuba, que pesquisa polirritmias e ritmos não ocidentais. Alex Dias é um dos mais completos baixistas em atividade no ABC, com uma atuação que vai da música de concerto em orquestras sinfônicas, passando pela sonoridade neo soul rock do Projeto Nave, até experiências de improvisação livre.

 

A longo destes 11 anos outros músicos fizeram parte do Conde Favela: o guitarrista Luiz Eduardo Galvão, o baixista Henrique Eloi, o baterista Ricardo Mingardi, o tecladista Will Aleixo e o guitarrista, compositor e cantor Arthur Vital.

 

 

 

ESTILO

 

Esta sonoridade foi construída através de estudos de linguagem e estilo musical. A banda se debruçou sobre o repertório de naipe da banda de apoio de James Brown, a The JBs; em composições como Exotique, do lendário e trágico trompetista Lee Morgan; em estudos de sambajazz na assinatura de J.T. Meirelles e os Copa 5, com destaque para o tema Quintessência, além da maestria de Edison Machado, que deu as pistas para a relação entre o hardbop e o sambajazz. Outras sonoridades atravessaram o grupo como a atmosfera modal do spiritual jazz  do trompetista Eddie Gale e a relação com as vertentes de vanguarda como o free jazz explosivo e a improvisação livre, com seu uso de técnicas estendidas, incorporação de ruídos, elementos que apontam a conexão do grupo com as práticas contemporâneas.

 

 

 

Diego Estevam

 

 

 

O jazz é sinônimo de liberdade, é uma música de superação onde o desafio do intérprete é reinventar-se sob as regras colocadas em jogo. Seu principal elemento é a improvisação. Não existe jazz sem improvisação e não existe improvisação sem auto-conhecimento, sem auto-desenvolvimento. Conforme aponta Ikê: “ouvir jazz, através de John Coltrane, Tenório Jr, Kenny Dorham, Edison Machado, Max Roach, Barrosinho, Lee Morgan, Moacir Santos e Billy Higgins contribuiu muito no sentido de eu me tornar um ser humano melhor.”

 

 

DISCO (FAIXA A FAIXA)

 

Gravado ao vivo, aos moldes dos grandes discos de jazz dos anos 1950 e 60, em novembro de 2019, no Estúdio C4, de Luis Lopes, Temas para Tempos de Guerra é o primeiro álbum do Conde Favela e apresenta cinco composições potentes. Houve nesta obra um apuro por encontrar uma sonoridade que soasse como um tributo aos mestres, resultado este audivelmente nítido para quem conhece este gênero.

 

 

A capa do álbum, ilustração de Ikê

 

 

 

 

ZAÍRA 13 // Composição de Harlem Nascimento, faz alusão aos morros de Mauá. No município de Mauá há vários bairros chamados Jardim Zaíra e diferenciados por números que vão de I a VIII. Segundo conta Ikê, Zaire era uma mulher árabe dona daquelas terras que foram loteadas posteriormente.  Na tradição oral o nome foi se transmutando. Tema explosivo impulsionado por uma síncope alucinante do baixo e da bateria, apresenta em clima meio etíope, um trompete em prantos, seguido de um saxofone soltando impropérios. Os solos são entremeados por um chorus emocionante. Ambos os solos são carregados de uma oralidade efervescente que tem muito a dizer. A guitarra de Diego, no final do tema, contribui sussurrando durante o solo conectado do baixo e da bateria, que transformam em pó a experiência sonora.

 

 

 

 

Harlem “Buruga” Nascimento

 

 

 

VIRA LATA ILUMINADO// O flow bluesy  sensual do solo de trompete de Ikê começa a contar a história sob acordes coloridos da guitarra de Diego até que o tema golpeia a cena por completo. Legítima canção instrumental, daquelas pra cantar junto, o tema é uma homenagem aos verdadeiros jazz mans reais. Aqueles que precisam improvisar para seguirem vivos, guiados nas incertezas impostas pela sua luz interior. O homem negro, que está abaixo de um cão. O solo de trombone de Mabu nos conta os episódios destas aventuras e desventuras que se descortinam entre ataques, carícias e diálogos com a guitarra e com o baixo. Um legítimo exemplo de improvisação coletiva e de como os diálogos se desenvolvem na dinâmica da roda de jazz. Após as cores da guitarra oferecerem um solo cheio de nuances sutis o tema retorna para encerrar a história.

 

 

 

Rafael Cab (no alto) e Edson Ilê

 

 

 

TEMPO$ DIFÍCIL// Um solo de baixo abre este tema de atmosfera rica em latinidade. A guitarra de Diego retorna aqui em um belíssimo solo, cheio de grooves e jogos de esquivas, necessários para a nossa sobrevivência. O grito do trombone que abre o solo de Mabu é um dos elementos vitais da musicalidade afro. É um grito de um corpo historicamente desonrado. Desta garganta ecoa a voz de todos os antepassados afros que sonharam com a frágil liberdade que temos hoje. Vivemos tempos distópicos de experimento social, Necropolítica instalada e operada por militares de um lado, milícias do outro, banqueiros da fé, narco-estado e elite do atraso intimamente entrosados. É preciso gritar, mas é preciso também sonhar futuros que serão vividos pelos que virão.

 

 

 

Mabu Reis

 

 

 

COZINHANDO GALO// O tema surge com um riff a lá jazz messengers para logo em seguida se desenvolver num abstracionismo de livre improvisação, uma chuva de intensidades que vai se adensando até que o walking bass de Alex vira uma nova página sonora. As folhas desta página são rasgadas pela voz tenor de Harlem Nascimento que finalmente passa a receita de como cozinhar um galo.

 

 

 

 

 

 

OGUM// Composição de Arthur Vital, que fez parte da banda por um curto período, é o tema de encerramento. Jazz de terreiro carregado de reminiscências da filosofia yoruba, o tema traz a solenidade que é característica do orixá Ogum, o Abre-Caminho, Rompedor de Matas, senhor da tecnologia do ferro, da agricultura, do combate, da guerra. Após os solos de trombone e de saxofone o tema abre espaço para o solo de bateria de Rafael Cab, que canta nos tambores subdividindo o tempo, acelerando e jogando com o pulso até a aparição do canto de Ogum, remetendo ao spiritual clássico de John Coltrane em A Love Supreme. É este mesmo espírito que está presente no registro desta performance do Conde Favela. Fazem parte desta mesma tradição afro em diáspora. OGUNHÊ!

 

 

 

Alex Dias

 

 

 

A trajetória incisiva deste grupo apresenta a mais legítima relação entre jazz e vida. Distante dos privilégios esta trajetória se manifesta como fruto da sabedoria e da iluminação em escolher os melhores caminhos para deixar sua contribuição artística, à revelia do hype, do mercado e dos networks. O legado do Conde Favela Sexteto está expresso nesta álbum num equilíbrio autêntico de técnica, intuição, emoção, inteligência e beleza, coisas que só são passíveis e possíveis de serem gestadas dentro um campo afetivo. Algo que não pode ser apropriado, nem forjado, sequer imitado.

 

 

 

 

 

 

 

+ para ouvir ///
condefavelasexteto

 

 

 

 

 

 

 

Romulo Alexis

Romulo Alexis é trompetista, (de)compositor, músico improvisador, pesquisador de processos criativos transdisciplinares, arte-educador e produtor cultural. Atua nos projetos Radio Diaspora (Free Jazz) e Membrana Experimental Fiat Lux (Performance e Cinema Experimental).

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.