junho de 2020

DIÁRIO VISUAL DE UMA GUERRA SEM VENCEDORES

Redação

 

 

 

 

 

 

fotos ari cândido

 

Caso fosse possível sintetizar em um único adjetivo toda a subjetiva complexidade que gira entorno da figura do fotojornalista e cineasta Ari Cândido Fernandes, eu diria, sem pestanejar, que se trata de um sujeito intenso. Daqueles que se manifestam em alto grau. Nascido em 25 de julho de 1951, em Londrina, no Paraná, filho de Maria do C. J. Fernandes e João Cândido Fernandes, respectivamente doméstica e pequeno comerciante, Ari Cândido, aos 20 anos de idade, e sentindo em sua pele preta as avassaladoras consequências do sombrio Ato Institucional Número Cinco (AI-5) e os Anos de Chumbo (1967-1969) da ditadura militar brasileira, auto exilou-se na Europa, passando por países como Suécia e França, até chegar à África, em 1971. No seu retorno ao Brasil, em 1979, integrou o Movimento Negro Unificado (MNU) nos primórdios da organização, comandou a Assessoria para Assuntos Afro-Brasileiros na Secretaria de Estado da Cultura em São Paulo, produziu diversos curtas-metragens, exposições fotográficas e, para este ano de 2020, planeja publicar um livro com alguns dos seus roteiros para cinema.

 

Há, porém, um capítulo marcante na trajetória de Ari, e que resume bem a mencionada intensidade com a qual este cidadão “do nordeste roxo do sul” entrega-se a vida e aos projetos profissionais que se envolve. Refiro-me aos seis meses vividos na Eritréia, entre os anos de 1978 e 1979, quando testemunhou in loco a guerra de libertação do país africano localizado na região conhecida, entre outros nomes, como Chifre da África.

 

Ao sair do Brasil, em 1971, deixando para trás a Universidade Nacional de Brasília, onde cursava música e cinema, Ari Cândido tem como primeira morada a Suécia. Em 1974, a convite de amigos e militantes brasileiros, embarca para Paris, onde dirige o cine-clube da Maison du Brésil, e cursa Estudos e Pesquisas Cinematográficos na Sourbone Nova. É neste contexto que surge o convite, feito por membros da Frente de Libertação da Eritréia (FLE), para fotografar a Guerra do Chifre da África. Episódio que marcaria para sempre a sua vida.

Na Eritréia, o fotojornalista produz imagens que posteriormente seriam divulgadas pelas agências Gamma, de Paris, e Câmera Press, de Londres. No país africano realizaria ainda um longa-metragem “Pela Eritréia” e um curta-metragem “Por que a Eritréia?“, em co-produção francesa-tunisiana.

A experiência em cobertura de conflitos armados se repetiria em 1979, quando fotografou a Guerra da Areia, no ex-Sahara espanhol. Na ocasião, passou cerca de um mês com membros da Frente Polisário da República Saharaui Democrática (R.A.S.D), em guerra com o Marrocos.

 

Algumas das fotos tiradas na Eritréia estão sendo veiculadas pela primeira vez neste ensaio, outras foram publicadas no já esgotado “Eritréia – uma esquecida guerra de libertação africana”, publicado em 1986, pela Edicon, e com prefácio de Clóvis Moura.

 

Essas fotografias, documento histórico da vida nas trincheiras de um conflito que ainda hoje segue parcialmente solucionado, desnudam o cotidiano de um movimento guerrilheiro pouco conhecido e menos ainda estudado: o movimento do povo eritreano pela sua independência.

 

 

 




“A guerra de guerrilhas é um recurso extremo do oprimido, usado contra forças políticas, econômicas, sociais e militares esmagadoramente superiores às que possuem os dominados. No Brasil ela foi usada largamente, fazendo, mesmo parte da nossa tática de luta contra as estruturas de poder dominantes. Usamos as guerrilhas como força auxiliar dos quilombos, na luta contra os holandeses, em movimentos como a Balaiada, a Cabanagem, a Sabinada, em Canudos e no Contestado, em lutas de cangaceiros e no Araguaia recentemente”, Clóvis Moura, no prefácio do livro “Eritréia – uma esquecida guerra de libertação africana’.


 

 

 

“A Eritréia está, geograficamente, situada entre o mundo africano e o mundo árabe. Até hoje o seu povo e sua luta sofrem interferências sobre a vontade de decidirem por si sós o próprio destino político e econômico do país”.

 

 

 





“Nos colocaram atrás de uma cerca, enquanto discutiam sobre três soldados etíopes desertores que acabavam de aprisionar rondando nossa trilha de caminho. Levaram-nos, junto com os desertores, para dentro de uma cabana, onde guerrilheiros e armas se empilhavam. Ainda não tinha amanhecido completamente quando saímos, numa coluna apressada em direção à Mandafara. Bombas explodiam no meio da cidade. Avistávamos. Guerrilheiros corriam em direção abaixo. Um festival de tiros de todos os calibres se intensificava. Gritos-uivos de mulheres, na cidade embaixo de nós. A cidade tinha sido libertada, o inimigo tinha escapado na noite tentando atingir a fronteira etíope. Mulheres choravam e me abraçavam confundindo-me com guerrilheiro. Um enorme alarido humano subia aos ares, o lugar em que o inimigo escondia a munição explodia seguidamente, tinham ateado fogo lento antes de terem partido”.


 

 

 

“Foram 45 minutos de tiroteio. As bombas caíam a 1 km de onde eu estava (pela primeira vez senti um enorme… deixe-me ver, creio que em língua ‘brasileira’, o certo é dizer… cagaço)”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Revista O Menelick 2º Ato é um projeto editorial de reflexão e valorização da produção cultural e artística da diáspora negra com destaque para o Brasil.